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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Conto 8 - Beijos Sensuais

Conto: Beijos Sensuais
Autor: Rodrigo Guimarães Motta
Escrito em: 1994

Nus, nós dois, na noite fria de inverno. Consumada pela intensidade de meus beijos, jaz inerte ao meu lado. Não paro de admirar seu corpo, os seios firmes e alvos contrastanto com os mamilos vermelhos. A cintura esguia, o sexo rosa cercado pelo cabelo muito negro.
E sorri enquanto dorme! Prova mais do que suficiente do prazer que encontra em nossos encontros furtivos. Se apenas soubessem a intensidade do nosso amor e paixão, imaginassem como seu pescoço procura minhas carícias e toda você por me ter dentro, inteiro dentro...
Desgraçadamente sua família e amigos pouco se importam com a felicidade, que cede lugar às aparências. Arranjar um esposo de conveniência, com a bolsa recheada. Até meu título não os comove. Afinal, há muito o ouro se foi, nos dias que passam um nobre sem o metal vale tanto quanto o mais insignificante plebeu.
Força alguma, porém, vai nos manter distantes. Eu, que acreditei anos e anos que emoções não se criam, a repetição de amores, beijos, guerras e vinganças transcorrem com monótona música ao fundo século após século, reconheço a monstruosidade do meu erro.
Desde aquele primeiro encontro, senti algo diferente. Não foi o entusiasmo que se rendeu as minhas carícias e luxúrias, pois assim tantas outras se comportaram. Entretanto, loiras e morenas, princesas e camponesas do novo mundo até o mais extremo oriente, mal sabem da minha fama de amante voraz e insaciável me abandonam, portas se fecham.
Com você, não. Daquela vez e nas muitas outras em que na noite úmida e convidativa a visitei, estava sempre sorrindo, pronta para abrir sua alcova e penetrar em todos os prazeres que o homem, esse animalzinho rasteiro que já fui, encontra em perpetuar sua espécie dessa forma consciente e inconsciente.
O infinito no tempo e espaço em que tive a solidão companheira, permitiu o distanciamento necessário para transcender o emaranhado da paixão e quebrar o círculo chamado moral que foi criado para preservar e não superar essas sensações.
Tanto esforço e sacrifício para atingir a superior condição de independência absoluta, tudo colocado de lado por meu amor. A titãnica sensualidade do prazer põe de joelhos minha vontade cerebral dá passagem à triunfante descoberta de gemidos e carinhos que se renovam a cada encontro nosso.
Ninguém ao meu lado, a parede em ruínas, o preço que paguei para ter a força de tudo fazer dentro do limite infinito de minha individualidade. Esses mundos e personagens fragmentados em que vivo terão um príncipe, agora acompanhado por sua consorte. Das trevas protetoras só sairemos para esporadicamente receber o vinho da alma, permitir a poucos mortais o contato com a deidade que tanto os fascina e assusta.
Eis que abre os olhos, querida! Sim, vamos nos corromper desse delírio um pouco mais, antes que a escuridão, nossa única cúmplice, parta e com ela eu também.
- Acordado e falando bobagens! – os olhos azuis se abriram – eu já estava acordada há algum tempo.
- Ora,....Você sabe que não são bobagens – era evidente o seu embaraço.
- Estou brincando, meu poeta querido – se aproximou dele, suas pernas agilmente entrelaçaram o quadril do companheiro – Adoro suas palavras tão doces, ainda mais faladas por um amante tão dedicado – Procurou com os dedos o membro dele, e riu feliz – e também insaciável!
Subjugado pela força dessa mulher, abraçou seu torso e por cima dela, penetrou com sofreguidão. Seus lábios e língua beijando e mordendo delicadamente, seios, braços, e por fim aquele pescoço delicado.
Drácula e sua amante gozaram juntos.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Conto 7 - Paquerinha Urbana

Conto: Paquerinha Urbana
Autor: Rodrigo Guimarães Motta
Escrito em: 1994


O edifício, de classe média, ficava em um bairro cinzento e anônimo da capital. Cida morava no segundo andar, enquanto sua melhor amiga, Lurdinha, estava no de cima. As duas empregadas domésticas sempre conseguiam um tempo à tarde para fofocar. Pouco importava o assunto que iniciava a conversa, logo suas paqueras eram o centro do papo. Naquela quarta não era diferente.
- Ai Lurdinha, desde que você começou a sair com o João Batista eu tenho me sentido sozinha. Nem no pagode de sábado tenho ido – a morena peituda e manhosa da Cida se queixava para a amiga no boteco aonde iam tomar cafezinho e fumar cigarro barato.
- Sozinha porque você quer. Com esse corpo, não tem homem que não te queira. Até meu patrão não tira o olho de você.
- Deus me livre, não quero incomodação com homem casado. Estou a fim de um gatão trabalhador, bom de beijo e com ginga mole, para dançarmos no fim de semana – Cida sorriu maliciosa – que nem o João Batista...
- Nem chegue perto que esse já tem dono, sua galinha. Agora, vou te ajudar, que assim você larga do meu pé. O João tem um primo do interior, jogador de futebol, que veio fazer testes nos times da capital. Seu nome é Dorivaldo e tem um bumbum de tirar o fôlego – a baixinha Lurdinha olhou sugestivamente para a amiga, que retribuiu o olhar.
- Como vou fazer para conhecer ele?
- A gente liga para o João e marca de ir os quatro juntos dançar no sábado.
- Tá louca? Se não me dou bem com o cara vai ser muito chato. Que tal combinar com ele de me encontrar amanhã no centro, na frente daquela sorveteria que sempre vamos?
- A madame quer tudo de mão beijada, não é? Para sua sorte, adoro dar uma de pombo-correio. Vou marcar com o Dorivaldo. Coloque uma blusa vermelha para ele te reconhecer – Lurdinha tomou o último gole de café e se levantou – Vamos emborar que tenho que preparar o jantar.
- Minha amigona! – Cida exclamou ao mesmo tempo que dava um beliscão no traseiro da amiga. Saiu correndo, os peitos chacoalhando sob a camisa folgada. A outra foi atrás para dar o troco. O caixa do bar ainda gritou para as duas que corriam:
- Gostosas!

Cida olhou ansiosa para o relógio. Faltavam dez minutos para as seis horas. Lurdinha tinha combinado com Dorivaldo às cinco e quarenta e cinco, ele já estava atrasado.
Ela tinha um pressentimento que ele não ia vir. Afinal essa quinta não ia andando como deveria. A patroa não gostou nada dela tirar quinta a noite de folga. Haviam discutido pouco antes de Cida sair. Nervosa, derramou o suco que estava tomando na blusa vermelha. Fizeram as pazes, mas ela teve que colocar outra blusa, azul.
Seis e dez. Ela já havia roído todas as unhas da mão direita. O filho da pu.. não ia vir. Nesse momento, alguém bateu no seu ombro e falou:
- Sua blusa está desabotoada atrás.
- O que? – Cida tirou a mão da boca e olhou para o moreno, cara de malandro, calça de brim e camisa estampada.
Ele repetiu que a blusa dela estava aberta atrás, com sua voz atrevida.
- Ih, que vexame, obrigado por me avisar.
- Se quiser posso fechar para você – os olhos dele brilhavam, ávidos.
- Cida agradeceu, impaciente. Já estava entendendo qual era a do cara. Falou que ia ao banheiro da sorveteria fechar. O moreno não se deu por achado, argumentou que ia com ela, o banheiro servia tanto para homem quanto pra mulher.
- Engraçadinho. Acontece que eu quero fazer xixi também – percebeu que fora muito agressiva e se arrependeu. Afinal, ele era um gatinho. Cara de pau, mas um gatinho.
Os olhos do moreno não perderam a avidez, mas se tornaram também duros e penetrantes – Melhor ainda. Isso me lembra de casa, mamãe vai ao banheiro de porta aberta.
Era o fim! Cida, furiosa, se esqueceu do que tinha ido fazer ali. Toda raiva que podia sentir estava concentrada no inimigo à sua frente. Não tinha nada a ver com a vida dele, respondeu, e só mijava de porta fechada.
Ficaram quietos por alguns segundos. Ambos se odiando e se admirando, como duas feras se preparando para o confronto. Cida vacilou, ia pedir desculpas e ir embora numa boa, o Dorivaldo não vinha mais. Mas para ele a rixa não havia acabado.
- Tão brava, deixa eu te dar um beijinho para te acalmar.
- Vá pedir para a sua mamãe – saiu correndo na rua movimentada do centro da cidade. Com os olhos cheios de água. O dia fora tão ruim que Cida só queria voltar para o seu quartinho no segundo andar e chorar um pouco. O ponto era a dois quarteirões dali e ela partiu no ônibus lotado, o cheiro da colônia que havia passado se perdendo naquela confusão de odores e suores.

No dia seguinte, Lurdinha encontrou uma Cida diferente no boteco. O copo, de café frio, o rosto nublado, nada convidava para o papo.
- Oi. O João me ligou e falou que deste o cano no Dorivaldo. O que aconteceu?
- Eu dei o cano? – Cida explodiu – Esperei o viadin.. um tempão, roí minhas unhas, briguei com um cara e nada do Dorivaldo. Não quero ver esse aí nem pintado de ouro na minha frente – Cida tomou o café frio de um gole só – E essa mer.. tá fria!
- Não é possível. O João me falou que o primo ficou até sete da noite na sorveteria, mas não viu nenhuma menina de blusa vermelha.
Cida começou a pensar rápido. No seu rosto a raiva virou espanto e desconsolo – É mesmo! Eu derramei suco na blusa antes de sair. Como estava com pressa, coloquei uma outra azul. Ele não podia me reconhecer mesmo – completou com voz chorosa.
- Não fica assim, boba. Eu ligo para o João e explico o que aconteceu. Vamos no pagode sábado e vocês tiram o atraso – Lurdinha piscou o olho – Veja a foto que o João me deu ontem. O moreno do lado dele é o Dorivaldo. Lindo, hein?
Cida mal acreditava no que estava vendo. O Dorivaldo da foto era o mesmo moreno de calça brim e camisa estampada que ela havia brigado na véspera. Sua primeira reação foi falar que não ia sair com ele. Logo, porém, se lembrou do arrepio que havia sentido quando ele se ofereceu para abotoar sua blusa e a raiva e atração cresceram emaranhadas dentro dela na discussão. Cafajeste, mas com aquela cara de pau, deveria ser muito interessante. Cida pensou que ela sabia como domar esse tipo de homem. O arrepio voltou e ela empinou os peitos, mais provocante do que nunca.
- Combinado. Sábado então – As duas se levantaram, Lurdinha tomou um beijo estralado da amiga e saíram as duas de mãos dadas do bar, rumo ao prédio cinzento que moravam. O caixa, vendo as duas saírem rebolando tão fasceiras, não resistiu:
- Gostosas!

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Conto 6 - Porque me aposentei ou Bruce Wayne lê as manchetes do jornal

Conto: Porque me aposentei ou Bruce Wayne lê as manchetes do jornal
Autor: Rodrigo Guimarães Motta
Escrito em: 1994

Gotham City, oito e meia da manhã. Acordei hoje muito bem disposto, mas a vontade de regar meus alfaces e cebolinhas durou os segundos necessários para eu levantar da cama, abrir a janela e ver o dia frio e chuvoso lá fora. Tentei voltar a dormir, mas a maldita artrite deu para me incomodar. Já que o sono não vinha, coloquei meu roupão novo, todo preto com a cinta amarela e desci para a biblioteca Wayne.
Lá me esperavam um maço de folhas em branco e a caneta que ganhei de presente de Jim Gordon no dia que abandonei os telhados e becos escuros. Há tempos sinto que devo uma explicação aos habitantes de Gotham e aos leitores da DC COMICS, empresa que publica minhas aventuras. Perco oitenta mil por mês do meu contrato com a DC, mas em compensação ganhei uma horta maravilhosa no gramado sobre a Bat-Caverna.

Vamos voltar ao dia que antecedeu a saída do Homem-Morcego de circulação. A história que vou contar já foi escrita pelo meu biógrafo favorito, Frank Miller, no seu “O Cavaleiro das Trevas” – título bastante infeliz, pois detesto cavalos – foi a época do terrível blecaute na cidade seguido do incêndio que destruiu diversos bairros.
O pânico tomou conta da população. Cidadãos honestos, da nossa bem-nutrida classe média e alta, frequentadores da igreja aos domingos e com sua doação anual para a UNICEF em dia, refugiaram-se em seus lares. Quando cheguei para acalmar os ânimos, poucos se habilitaram a me ajudar. Um deles chegou a atropelar uma jovem grávida com sua mercedes, na ânsia de se proteger. E não voltou para socorrer a menina, que abortou a criança sem que eu nada pudesse fazer. Só encontrei portas fechadas na minha cara, toda aquela gente que passe a vida inteira defendendo dos ataques insanos do Coringa.
O blecaute passou, o incêndio foi controlado. Voltei para a mansão Wayne vitorioso, mas com minhas certezas abaladas. Será que defender os lares, a saúde e o status dessa gente era estar do lado do bem? Pode ser que tudo não passou de uma atitude precipitada pelo terror.

Alfredo trouxe café preto, resolvi ler os jornais para me acalmar um pouco. Soube que vereador de Gotham, candidato à reeleição fora obrigado a renunciar. Havia aprovado verbas para o bairro onde sua casa era localizada, o que fora reprovado pela população. Coerentes, vão a igreja aos domingos, logo tem que defender a moral e os costumes.
Na próxima página li que outro candidato à reeleição renunciara também. Ele beneficiara empreiteiras amigas em emendas na câmara da cidade. Os gritos indignados que surgiram em toda a parteo forçaram a desistir da candidatura. Correta nossa gente, que ainda por cima ajuda as campanhas da UNICEF.
Por algumas páginas cheguei a acreditar que a atitude dos meus protegidos na noite anterior fora única e portanto perdoável. A ilusão demorou até uma pequena nota de rodapé, sem nenhum destaque na página internacional. Uma frase apenas, nela contida a vida de cem mil pessoas que morreram de fome e peste em um pequeno e desinteressante país da África. A imagem da moça grávida e seu aborto acordou minha consciência definitivamente.
Perto de mais uma eleição para prefeito de Gotham, leio que um dos candidatos, feio e gordinho, estava com seu eleitorado cada vez menor. Essa seria sua segunda derrota. Na eleição passada perdera para um papo elegante, terno moderno e olhos arregalados. O tempo passou, seu opositor tinha papo moderno, ternos elegantes e diploma de sociologia.
O desânimo tomou posse de mim, pois o gordinho esteve do meu lado no incêndio, levou a menina ao hospital, ainda com o feto nos braços. E ainda por cima estava tão difícil combater esse palhaço que o tempo refinara. Seu negócio agora eram as negociatas no congresso, trazer muamba do exterior com a conivência da receita federal, tramas muito complexas para esse justiceiro mascarado aqui.
Abri uma garrafa de uísque, chamei Alfred e juntos tomamos um porre homérico. No dia seguinte, ainda com dor de cabeça, liguei para Jim Gordon. Ele sentiu muito, mas compreendeu minha atitude. Afinal, as primeiras mudas de repolho foram presente dele.
Por favor, perdoem esse combatente do crime que pendurou as chuteiras. Ou o bat-cinturão, como preferir. Porém, antes de me desprezarem, lembrem das portas batidas na minha cara no blecaute, da forme e da peste esquecida num país distante e da agonia de uma mamãe que quase chegou lá. Para quem quiser um conselho, cuidado com papo moderno e ternos elegantes.

Gotham City, nove e quarenta e cinco. Jim, não quero que siga o mesmo caminho que eu. Gente como você e o gordinho me impedem de dar um tiro na cabeça. Só não contem mais com minha ajuda. Vou continuar com meus repolhos e tomates. Deixo Gotham com o Coringa, eles se merecem.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Conto 5 - O Gato

Conto: O Gato

Autor: Rodrigo Guimarães Motta

Escrito em: 1994


O prédio, situado no centro da cidade, é imponente, com sua construção do início do século se destacando dos modernos edifícios envidraçados. Apesar do tempo já ter deixado cicatrizes em seus vinte andares, foi o escolhido pelo Soulcrusher, maior banco de investimentos do país, para instalar sua matriz. Nossa história começa no terceiro andar.

- Fábio, a operação com o Citi foi fechada?
- Ontem à tarde acertei os últimos detalhes – assim era o Fábio, jovem brilhante, com a energia dos vinte e seis anos, toda voltada ao trabalho. Estava sempre um passo á frente em suas tarefas.
O que ele não compreendia é porque outros, com menos resultados, já tivessem se mudado para o quarto, quinto, até mesmo para o oitavo andar. Ele, porém, continuava trabalhando na mesa de operações do terceiro, mesmo cargo e local desde que entrou no Soulcrusher, há quatro anos.
Nunca parou para avaliar sua situação. Sua consciência calvinista, adquirida com o pai, dizia que deveria trabalhar mais e mais; o esforço não tarda a ser recompesado. Numa manhã de inverno, quando recebeu a notícia de que um colega, há seis meses no emprego, foi promovido para o quinto, Fábio saiu muito frustrado, se permitiu um dos poucos momentos de dúvida em sua carreira.
- Que tremenda injustiça, será que nunca vão ver meus resultados? – o gemido de Fábio foi no boteco ao lado do prédio, onde almoçava sozinho, todos os dias. Não porque os outros não gostassem dele, pelo contrário. Era sempre convidado para almoçar por seus colegas, mas preferia o boteco por ser colado ao Soulcrusher, logo ele podia voltar mais rápido ao trabalho.
- Vão ver sim, basta que você os mostre as pessoas certas – uma vozinha insinuante falou ao seu lado.
Fábio se virou e viu Ramos, o ascensorista. Volta e meia trocava uma ou duas palavras com ele, pois o sujeitinho também almoçava no bar ao lado do edifício. A figura do palpiteiro não era das mais agradáveis: pequeno, úmido, óculos tortos que mal disfarçavam a malícia dos olhos. Ainda assim, Ramos tinha grande vaidade, usava botas de couro sempre engraxadas, seu uniforme, muito velho, estava passado e engomado. Daí os executivos o terem apelidado de “Gato”.
- Como fazer isso, você pode me ensinar, Gato? – sua voz era divertida e havia uma ponta de interesse.
- Sim, você é jovem, bonito e competente, pelo menos é o que todos falam. Façamos um trato: segue à risca meus conselhos, logo estará muitos andares acima do seu mais ambicioso sonho. Em troca, após a primeira promoção, me dará um quinto do seu salário todo mês.
Olhou para aquela coisinha desprezível ao seu lado, mas que falava com tanta segurança. Até agora só tinha trabalhado, trabalhado e não saía do mesmo lugar. Sua mãe, muito religiosa, sempre falou na interferência da mão divina quando o indivíduo mais precisasse. Talvez o Gato fosse a materialização dessa mão. De mais a mais, não tinha nada a perder.
- Aceito – e assim o Gato começou a agir.

Dr. Eduardo, presidente do Soulcrusher, subia no elevador do Gato todos os dias às sete e meia. Era sempre acompanhado pelo diretor de operações. Nesse dia só estavam os dois e o ascensorista no elevador.
- Você acha que devemos comprar ações do BCP?
- Sim, Eduardo. O preço está excelente e temos o capital necessário.
- É verdade, entretanto tenho dúvidas se esse é o momento certo.
- Com licença, Dr. Eduardo – a atenção de ambos se voltou para Ramos, que havia interrompido a conversa – a hora não é propícia para comprar ações, se esperar mais alguns dias, o preço vai baixar pelo menos cinquenta porcento.
- E como o senhor sabe disso? – perguntou um presidente entre irritado e curioso.
- É que eu almoço no mesmo lugar que o Fábio, da mesa de operações do terceiro. Ontem, durante o almoço, ele me falou que as ações do BCP vão custar a metade do preço na próxima semana.
Gato, na verdade, havia levado os diretores do BCP para a reunião com o Dr. Eduardo na véspera. No elevador ele ouviu que a situação era desesperadora, estavam falidos. Se não fechassem o negócio até sexta-feira, iriam aceitar metade do valor para poderem saldar suas dívidas.
- Muito bem, vou levar a opinião desse Fábio em consideração – se voltou para o diretor – Quero falar com esse rapaz hoje à tarde.
Às duas horas, Fábio estava na frente do presidente. O Gato, no almoço, orientou ele sobre o que falar.
- Então você acha que devemos aguardar para comprar o BCP? – seus olhos azuis estavam fixos no jovem loiro, rosto bonito e inteligente. Bom partido, pensou. Seus lábios finos e delicados mal disfarçavam o sorriso.
- Sem dúvida, Dr. Eduardo. O balanço do BCP indica que eles estão bastante endividados. A curto prazo, se não conseguirem o dinheiro, vão quebrar. Vamos aguardar uma nova oferta.
- Sabe Fábio, gostei da sua opinião, meu instinto também diz que devemos esperar. Foi um prazer conhecer você – a conversa estava encerrada, Fábio saiu da sala.

Na quarta-feira da semana seguinte o Soulcrusher comprou o BCP pela metade do preço. Fábio foi promovido para o décimo-quarto andar e deu um quinto do seu salário ao Gato, como haviam combinado.
- E agora, Ramos? Quero ir mais longe, uma diretoria estaria de bom tamanho – os dois estavam no boteco, almoçando.
- Não demora muito, Dr. Eduardo vai te convidar para jantar. Aceite, e se ele quiser esticar a noite em outro lugar, acompanhe-o.
- Está bem, vai ser um prazer jantar com o presidente, mas que história é essa de “esticar a noite”?
- Isso não interessa, apenas faça o que estou falando.
O Gato sabia das preferências sexuais do Dr. Eduardo, todos os diretores do Soulcrusher namoravam ele antes de serem promovidos.
De fato, o convite não demorou muito. Tudo ocorreu como o ascensorista havia falado. Após a sobremesa, o presidente sugeriu que fossem até sua casa tomar mais um drinque. Passaram esta e muitas outras noites juntos. Pouco depois, Fábio foi promovido para o décimo-nono andar, como vice-presidente executivo.
Passou a ir almoçar com a diretoria, no clube de campo. Mal via seu amigo Gato, apenas trocava um “oi” apressado com o ascensorista, no elevador. Eventualmente deixou de depositar a quinta parte do seu salário na conta do Gato. Este ficou preocupado, mas decerto era apenas um esquecimento do amigo.
Já que o vice-presidente não almoçava mais no boteco e elevador não era o local adequado para falarem de assunto tão delicado, Ramos teve que marcar hora. Três meses se passaram até que a secretária de Fábio encaixou o Gato entre uma reunião da diretoria e um almoço com investidores japoneses.
- Fábio, preciso muito falar com você.
- Claro, claro, Gato. Por favor, seja breve, não posso me atrasar para o almoço com os japoneses – o vice-presidente olhou para o relógio.
- Vou ser breve. Você não deposita o dinheiro na minha conta há meses. Sei que tem trabalhado muito, deve ter esquecido.
- De que dinheiro você está falando?
- Ora, a quinta parte do seu salário que você prometeu para mim, se o ajudasse a subir na carreira.
- Ah, esse dinheiro. Olha, eu já te ajudei um bom tempo, mas agora estou na vicê-presidência e não fica bem eu estar recebendo um ascensorista em minha sal. Se você puder me dar licença, tenho um compromisso em cinco minutos.
O Gato saiu da sala lívido, seu corpo todo tremia. Como ia comprar suas botas de couro, pagar o aluguel da casa onde seus pais moravam? Na hora do almoço ficou olhando os ônibus que passavam na avenida em frente ao prédio. Quando se jogou na frente do maior deles, quase nada sobrou para contar história. Seu corpo foi reconhecido pelas reluzentes botas que eram sua marca registrada.
No dia seguinte, foi admitido um novo ascensorista eo Fábio pouco depois assumiu a presidência do Soulcrusher.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Conto 4 - Chocolate com Marshmellow

Conto: Chocolate com Marshmellow
Autor: Rodrigo Guimarães Motta
Escrito em: 1994

Que preguiça! Deve ser mezinha da Lena, ter que sair da imobiliária nesse calorão todo para ir até Barramares pegar assinatura do síndico. E olha que de Porto até o condomínio são dez quilômetros. O ônibus tava cheio de paulista, que sotaque mais engraçado, orra meu! Ainda bem que a noite tem trio, vou descansar desse trabalho todo requebrando com o Olodum.
Tá aqui a casa do Gringo, só esperar ele abrir a porta, mas já bati três vezes... esses americanos são estranhos, vou dar uma espiada no quarto dele, quem sabe não tá dormindo. Dando a volta pela casa, não precisei ir até o quarto, da janela da cozinha descobri porque não abriam a porta.
- Vem cá Chocolate, mais um beijinho – o grandão e desajeitado americano, sentado chamava – só mais um, por favor.
- Você é muito diferente, sabe – a risada comprida e de dentes muito brancos da Simone, zeladora do condomínio, enche a cozinha – Os daqui não ficam pedindo beijinho, logo abraçam e arrancam um beijão.
- Tá bom, tá bom, Chocolate, as you wish – o Gringo levantou e foi até Simone estralar o maior beijo na sua boca. De costas, seu corpo branco tremia, até parece aquele cuzcuz que Lena me deu para provar, tinha comprado no aeroporto, qual era o nome? Marximélou, eu acho. Quem viu anteontem a reunião lá na imobiliária, ia entender esse casal. Espere até Lena saber.

- Você tem que tomar uma atitude, John, isto não está certo – gritava a morena de olhos azuis, magra e elegante na sua canga de Bali – essa fulana aí não me respeita, não faz nada do que eu mando.
- Sim amor, eu entendo – o brancão suava de monte, mesmo com todo o ar condicionado da imobiliária – mas o que você quer que eu faça?
- Ora essa, formado por Harvard, diretor de multinacional, perguntando o que fazer? A indivídua se recusou a obedecer as ordens da mulher do síndico do condomínio para ir dançar! Nós pagamos para ter uma zeladora, não uma vagabunda – a morena estava muito vermelha, de sol ou de raiva, seus olhos mais gelados não conseguiam ficar.
Nesse momento, Simone, que escutava quieta a discussão do casal, se defendeu – A senhora me desculpe, mas eu não sou vagabunda não. Faço meu trabalho das sete até as vinte horas, do meu lazer fora desse horário quem decide sou eu.
- John, você escutou isso? Ainda por cima é respondona. Maldita hora que você resolveu comprar essa droga de casa em Porto Seguro, o Guarujá tão perto de São Paulo, e os empregados são muito mais educados.
- Amor, você chamou a zeladora de vagabunda, isso não está certo. E no contrato de trabalho dela nada diz que como zeladora ela tem de estar a sua disposição e de suas amigas para preparar muqueca de siri às onze da noite de domingo – As mãos trêmulas do Gringo John em cima da mesa revelaram o quanto custaram essas palavras.
- Obrigado, senhor – as palavras cheias de gratidão, seus olhos o fitavam com muito brilho, agora eu sei o tesão que estava atrás desse olhar da negra Simone.
- De que lado você está, afinal? Até parece que quem tem que resolver essa crise sou eu e não você, que é síndico do condomínio e m-e-u marido, ora essa – a morena tinha ficado tão vermelha que eu pensei em chamar Lena, talvez ela tivesse um troço e eu não entendo de primeiros socorros – E tem mais: para mim chega, estou levando as crianças de volta para São Paulo, não vou passar esses dias que eles tem ainda de férias me incomodando. O senhor, porém, fique sabendo de uma coisa, se não tomar uma atitude já-já eu e meus filhos não colocamos o pé nessa terra mais.
- Está OK meu amor – se virou lentamente para mim, as duas mulheres, sua esposa e Simone, aguardando a decisão – Você pode conseguir outra funcionária para trabalhar no turno da noite, no horário de descanso de Simone? O Gringo não precisou nem terminar a frase, sua esposa já estava longe, saíra batendo a porta da sala com toda a força, BLAM! Well, acho que vou passar meu final de férias sozinho.
- Só se você quiser – a negra Simone falou ao se levantar, toda sensualidade – Tenho que voltar ao trabalho, com licença.
Sozinha na sala do síndico, prometi trazer a solicitação para contratar mais um funcionário para ele assinar o mais rápido que eu conseguisse. Ele concordou com um jeito meio distante e saiu.

Fiquei admirando mais um pouco os dois pela janela, tão carinhosos um com o outro. Chocolate com Marximélou recheado de risos e beijos, o sabor desse cuzcuz delicioso se misturando com o cheiro de peixe, camarão e azeite de cozinha. Logo o Gringo John vai ter que voltar para a canga de Bali e seus gritos e reclames, deixa ele e a Simone se divertirem numa boa que eu volto outra hora.
Saí andando lentamente, o calor está muito forte e tenho dez quilômetros até Porto.

sábado, 17 de janeiro de 2009

Conto 3 - A sobremesa

Conto: A SobremesaAutor: Rodrigo Guimarães MottaEscrito em: 1994

Botelho acordou às seis horas, como fazia todos os dias. Vinte minutos foi mais do que suficiente para ele cumprir rigorosamente sua rotina. Dobrou os lençóis, escovou seus dentes, lavou o rosto, colocou terno azul e camisa branca – todos os seus ternos eram azuis e suas camisas brancas – e saiu para o trabalho.
- Botelho, venha cá que quero te apresentar nosso novo funcionário – disse Henrique, seu chefe no departamento de contabilidade da firma – esse aqui é Ramon, começa hoje a trabalhar.
Que horror! Ramon tinha a sua idade, ia trabalhar a poucos metros dele, mas como era desalinhado! Barba por fazer, dentes amarelos do cigarro. Não fez força para esconder sua repulsa, até que Ramon rompeu o silêncio.
- Muito prazer. Vou gerenciar o setor 1, o Henrique me falou que você é o gerente do setor 2. Tenho certeza que nós vamos nos entender muito bem.
- O prazer é meu – Botelho mal conseguia permanecer em pé, tão indignado estava. Ele, ultra-alinhado, cinco anos de firma, diploma universitário embaixo do braço, tinha conseguidoa muito custo o cargo de gerente do setor 2. Agora vinha um estranho, sujo, com dentes amarelos e de cara assumia o cargo que imaginava ser seu no topo da carreira: gerente do setor 1, o responsável pelos clientes mais importantes da firma. Não, aquilo não estava certo.

O Botelho comia no bar da esquina, do meio dia, cinco minutos e trinta segundos até a uma hora. Estava levantando para sair, cara emburrada por causa das más notícias da manhã, quando percebeu que o Ramon vinha gingando em sua direção.
- Ô Botelho, você vai ter companhia para o almoço, está bem?
Botelho gemeu um sim e lá foram os dois para o bar da esquina. Ramon, muito expansivo, não parou de falar, contou os anos que passara no seu outro trabalho, sua transferência para São Paulo e como agora decidira retornar à Porto Alegre.
- Você sabe de algum lugar para eu alugar? Estou num hotel do Centro e não quero ficar lá por muito tempo.
Botelho se lembrou que seu vizinho estava de mudança, ia voltar para o campo, mas aquele cara, morar do lado da sua casa, janela com janela? Nem pensar.
- Tem uma casa ao lado de onde eu moro que esta para alugar, se você quiser podemos ir lá após o trabalho. Idiota, idiota, idiota, o que está acontecendo contigo, Botelho?

Às cinco e trinta, pontualmente, o Botelho se levantou e foi chamar o Ramon para irem ver a casa que estava para alugar.
- Valeu cara, mas quero me colocar em dia com essa papelada. Deixe o endereço aqui que eu passo lá mais tarde – Ramon falou, sem sequer levantar os olhos do que estava fazendo.
Vermelho de raiva, ele escreveu o endereço num cartão, colocou na mesa do Ramon e foi embora, tinha que jantar às seis e meia.

Botelho estava em sua sala, comendo a salada que havia feito, janela aberta por causa do calorão de Fevereiro. O garfo congelou no ar, quando ouviu seu vizinho falando com outra pessoa, voz que também era familiar a ele. Levantou-se e viu, por cima do muro, o Ramon, uma mala em cada mão, balançando afirmativamente a cabeça.
Pela manhã, após ter cumpridosua rotina, dobrar os lençóis, escovar os dentes, colocar o terno azul e camisa branca, não conteve a curiosidade e foi bisbilhotar como andava seu novo vizinho.
Lá estava ele, o Ramon, lendo o jornal, ovos fritos e uma dose de...era mesmo! Tequila no café da manhã, e com aquela cara toda amarrotada. Após terminar sua bizarra refeição, ele calmamente enfiou o dedo no nariz, tirou uma imensa meleca toda verde e após um longo olhar carinhoso, comeu-a. Botelho fugiu correndo para o serviço.

Seu trabalho foi interrompido, à tarde, pelo chamado do Henrique, queria ver ele na sua sala. O Ramon já estava lá, e assim que chegou, seu chefe foi logo falando:
- Vou tirar duas semanas de férias, enquanto estiver fora, o Ramon, além do setor 1, fica encarregado pela análise dos resultados do seu setor, Botelho. Tenho confiança que vocês vão se entender muito bem, agora com licença, que tenho muito trabalho a fazer.
Botelho sentiu seus pés dormentes com a notícia. Só faltava essa, o come-meleca era agora o número 1 do departamento. Passou o resto do dia num transe, esqueceu até de colocar tomate na sua sala-jantar. Tentou ver novela, ler um bom livro sobre técnicas administrativas. Quando deu por si, estava do lado do muro, bisbilhotando o vizinho.
Ramon não estava só. Podia ouvir risos femininos e logo uma bela negra apareceu na sala, meio despida, Ramon logo atrás dela, esse sim já totalmente nu. Seu pudor não permitiu que ele assistisse a putaria até o final, então foi dormir.
A noite passou rápido, fora perturbado por estranhos sonhos onde estava amarrado na cama e Ramon e sua negra rindo e acariciando seu p.. Acordou sobressaltado, cumpriu seu ritual de manhã e foi bisbilhotar o vizinho.
Lá estava Ramon, o copo de Tequila vazio e a meleca imensa, verde e gosmenta em seu dedo. A visão durou menos de um segundo, o pequeno manjar foi degustado com ainda mais prazer do que no dia anterior.
Botelho foi ao trabalho decidido a não ter mais nenhum tipo de contato com o Ramon, exceto o estritamente necessário. Quando, no meio da manhã, o colega veio com seu gingado típico em sua direção, os dentes amarelos à mostra em um largo sorriso, Botelho amarrou a cara e esperou.
- Botelho, hoje vou ter um jantar na casa de um amigo, vamos ler algumas poesias, rir um pouco. Minha amiga – ele piscou o olho – tem uma prima do interior que está na casa dela, acho que você vai gostar de conhecê-la. Toco sua campainha às oito para irmos, ok?
Como ele fora aceitar esse convite? Há anos não lia nenhuma poesia, seu negócio eram os livros de contabilidade e administração. E sair com uma negra, pois se a amiga do Ramon era retinta, a prima só podia ser também. Mas afinal, já havia dito sim, ia ser seu primeiro encontro às escuras desde o tempo do colegial, isso é loucura, sua mãe diria.

Ás oito horas, a campainha do Botelho tocou, e lá estava Ramon com duas...loiras espetaculares! Aquilo era demais para ele, e no trajeto até a casa do amigo do Ramon, arranjou um jeito de perguntar a ele, sem que as loiras percebessem:
- Desculpe a intromissão, mas ontem estava regando o meu quintal, não pude deixar de eh, olhar por cima do muro e vi você com uma menina, que eh, não era essa sua amiga.
O embaraço dele foi cortado pela risada sonora e franca do Ramon. Não aquela era outra amiga, ele tinha mais de uma amiga, e daí?

Na casa do colega do Ramon, a leitura escolhida foi a obra do Mário Quintana, justa homenagem ao poeta recém-passado. As loiras, que além do rabo sensacional faziam pós-graduação em letras, liam os textos, Botelho não conseguia tirar os olhos de suas bocas sensuais, quão mais sensuais não seriam se estivessem chupando seu p.. afastou aquele pensamento com um abrupto movimento de cabeça, não estava certo pensar isso, ele mal conhecia as meninas!
Foram deixar as loiras em casa, não houve convite para entrar, mas o Ramon foi quem abriu a porta, tinha cópia da chave, puxou o Botelho, entraram e o primeiro logo se afastou com seu par, enroscados em beijos e chupadas, não se incomodando com a cara de constrangimento do Botelho, que olhava aquilo sem saber direito o que fazer.
Sua dúvida durou menos de um minuto e um segundo, a outra loira abraçou-o por trás, seus lábios mornos e molhados estimulando sua nuca, as mãos buscando seu peito, seu abdômen, seu membro...
Chegaram em casa às três da manhã, satisfeitos e felizes, os dentes amarelos do Ramon abertos em um largo sorriso se despediram do colega:
- Nada mau para uma quarta à noite em Botelho? Nos vemos amanhã no escritório.

Na manhã seguinte, apesar do pouco sono, ele acordou mais entusiasmado do que nunca, tirara o atraso, que noite tivera! Após cumprir seu ritual matinal (esqueceu de dobrar os lençóis, pela primeira vez em cinco anos que morava sozinho), foi ver como andava seu vizinho, e a cena não podia ser diferente; o copo de Tequila, os ovos fritos e o melecão na ponta do dedo indicador esperando sua vez.
Botelho pensou em tudo o que vivera até ali, sua vida rigorosamente planejada, sua rotina espartana, as poesias do Mário Quintana, os lábios da loira em sua nuca, o sucesso do Ramon no escritório. Aquilo foi suficiente para tomar a grande decisão: devagar, ritualmente, enfiou o dedo no nariz, após uma procura tímida mas constante lá dentro, tirou uma melequinha seca e comeu-a, mastigando bem.

Os dias que se seguiram foram de descoberta e expansão na vida de Botelho. As suas empreitadas noturnas, cada vez mais frequentes, trouxeram o sexo ao seu cotidiano, sexo bom, forte e sincero. Loiras, morenas, negras, suas mulheres se sucediam e ele encontrava espaço e carinho para todas.
Estava cada vez mais craque em comer melecas. Pela manhã, tirava enormes cacas verde-amarelas, as engolia bem devagar, chupando seu corpo por inteiro antes da deglutição.
Talvez fossem as mulheres, quem sabe as poesias, que ele agora lia à noite, no lugar da página econômica do Zero Hora, o fato é que estava evoluindo a olhos vistos no trabalho, nunca desempenhara com tanto entusiasmo suas tarefas, o escritório com a dupla Ramon-Botelho estava atingindo resultados incríveis. O Ramon, comedor de meleca, veterano que era, à frente, o Botelho não muito atrás, estavam colocando aquela estrutura burocrática ao avesso, administrando resultados com criatividade.
Quando Henrique voltou de férias, novamente ambos foram chamados a sua sala e receberam a novidade:
- Estou muito satisfeito com a dupla, há muito tempo o setor 1 e o setor 2 não apresentavam resultados tão consistentes. A partir de hoje, ambos vão ter um aumento de salário de vinte porcento, parabéns. E Botelho, se você continuar não penteando o cabelo, vai acabar ficando a cara do Ramon.
Esse aumento salarial, que em outros tempos seria motivo de festa para Botelho, foi recebido com reservas. Estava enfrentando uma grande expansão pessoal, é verdade que o Ramon o ensinara a comer meleca, mas sabia que podia ir mais além.
Seu potencial de leitor de poesia poderia crescer para ser o escritor de poesia; as diversas mulheres que passavam em sua vida, seria melhor levar mais a fundo a relação com uma delas. No trabalho, porque não cobicar o lugar do próprio Henrique?
Botelho percebeu que toda aquela vivência que conhecera e fora apresentado pelo Ramon fora fundamental para seu desenvolvimento. Entretanto, ele podia ir mais longe, até lugares onde Ramon nenhum pensara existir. Mas...como chegar lá?
Nesta noite ele passou muitas horas pensando sobre isso, nem quis sair quando o Ramon e as duas loiras vieram chamá-lo para uma festa. E então descobriu o caminho.

No dia seguinte acordou, cumpriu sua rotina de dobrar lençóis, escovar os dentes e lavar o rosto. Não colocou o terno azul nem a camisa branca, permaneceu nu. Foi até o muro que separava sua casa da do Ramon e mais uma vez o colega, terminando a Tequila, estava quase na hora da meleca matutina.
Botelho voltou ao seu quarto, olhou mais uma vez para aquelas paredes tão conhecidas, sabia que não as tornaria a ver com esses olhos. Então, devagar, começou a tirar a maior meleca do seu nariz, foi buscar lá no fundo e saíram suas tripas, o contato com o ar as transformando em meleca, depois o coração-meleca, os pulmões-meleca, a bexiga meleca, das vísceras para fora quase tudo ia se transformando à medida em que ia saindo de seu nariz. Quando sua última veia se melecou, no lugar do Botelho, o que se via era a maior, mais verde e pingante meleca que já existira. E ele vibrava, feliz e cheio de vida.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Conto 2 - Escolha Certa

Conto: Escolha Certa
Autor: Rodrigo Guimarães Motta
Escrito em: 1994

Meu diário, meu Amigão: escola, shopping, clube. Os três lugares que frequento, tão cheios de amigos e amigas. Minhas colegas de classe no terceiro ano, sempre prontas a dar uma esticada no Shopping Iguatemi para olharmos as vitrines, em semana de mesada comprar tudo que nossos olhos passaram o mês imaginando. Depois o Papai vem reclamar:
- Fefê, já gastou tudo!
- Puxa Papai, tá todo mundo usando essa roupa e o livro de poesias foi o Tio Ismael que recomendou.
- Você ainda me leva a falência...
Tudo tão gostoso, que agora em Maio baixou uma depressão danada em mim, o começo do cursinho adia em seis meses novas idas ao shopping, vou ter que mudar o horário da aula de natação para a noite, saco.

Amigão, na minha primeira aula de natação no novo horário conheci o Xuxa. Loiro, forte, esguio, no final do treino sua boca de traços sensuais me intimou:
- Como você chama?
- Fefê.
- Meu nome é Xuxa. Meu estilo é crawl e faço parte do time de pólo-aquático.
- Que legal...
- Qualquer hora pego seu telefone para sairmos. Tchau!
Quando consegui falar meu tchau ele já estava longe, seu perfil tão belo e tão superior. Fiquei com raiva de mim mesma, aquele monumento de arrogância fez aparecer esse calor morno e molhado entre minhas pernas, a curiosidade e a necessidade de ter um homem em mim crescendo demais.

Jantamos em casa, Papai, Mamãe, Tio Ismael, Tia Lilica, e eu. Como está a leitura do livro de poesia, Tio Ismael perguntou, super-jóia, você vai ter um companheiro para a leitura, o João, meu afilhado de Cuiabá vem para cá fazer cursinho, vai ficar na sua classe e além de adorar poesia também escreve seus poemas.
Depois do jantar, enquanto tomava meu banho, lembrei com carinho do Tio Ismael, único cúmplice da minha paixão, a poesia. Como será esse tal de João que vai estudar comigo? Amigão, menino gostar de poesia...duvido. Só querem saber de esporte, sair à noite, beber. Igual o Xuxa, ah Xuxa...a água gelada não afoga o meu desejo, pego a escova de cabelo tão minha conhecida, abruptamente ela está entre minhas pernas, rápido, forte, preciso de um homem, rápido, forte, preciso de um homem!

Que dia. No cursinho o moreno quieto da primeira fila, corpo bonito, olhos meigos, chega em mim, deixa que eu adivinho seu nome, é a Fefê, sobrinha do Tio Ismael, como você soube, tão bonita como o Tio Ismael me falou só tem uma na classe. A conversa foi longe, Amigão. Ele tão envolvente, contando sua experiência em Cuiabá, seus momentos sozinho preenchidos com a leitura, a vontade de vir estudar em uma cidade maior, o fim do namoro de anos quando mudou. Amanhã vamos comer algo depois da aula, vamos João, tchau então.

Com a cabeça nas nuvens, fiz a aula de natação, mal havia saído da piscina quando o Xuxa atacou.
- Oi Fefê!
- Oi.
- Bom te ver. Meu pai me emprestou o carro, hoje te dou carona pra casa. Vá se trocar que eu te espero na portaria.
Que raiva desse cara, mas como recusar a carona de ombros tão largos, cintura tão esguia? Entramos no Tempra do pai dele, a música tocando alto no CD. Parou o carro alguns metros além da porta da minha casa.
- Tchau Xuxa, brigado.
- Tchau Fefê – e me deu um beijo na boca, longo e insinuante, sua língua me penetrando, subjugando, fazendo meu corpo tremer. Sua mão forte tocou meus seios, seus dedos apertaram os bicos até machucar. Abaixou o banco e subiu em mim, abaixou minha bermuda, um, dois, três dedos na minha...meus gemidos incontroláveis cada vez mais altos, a buzina ao lado do Tempra veio me salvar.
- Olha a sacanagem, seus tarados.
- Vá se ferrar – rosnou o Xuxa para o carro que já se afastava – Sábado, Fefê, meus pais viajam, passo aqui para irmos assistir um vídeo em casa.

Não consigo prestar atenção em nada do que os professores falam no cursinho, ainda não é meio-dia de sexta-feira, tão longe do sábado à noite! No final da aula o João se aproxima, lembro que havíamos combinado de lanchar juntos após a aula, vamos lá em casa, eu faço um milkshake de chocolate com cobertura que é uma delícia, vamos achei você estranha na aula hoje, não falou com ninguém, não é nada João, só impressão sua.
O que era um milkshake rápido durou horas. O João mostrou o caderno aonde estavam escritos seus poemas, passamos um tempão nos emocionando com seus escritos, simples e cheios de sentimento.
Amigão, como eu gosto do João! Fefê, o que você achou, adorei todos, então leia esse em casa, escrevi para alguém que não conhecia e procurei por um bom tempo. Não fique convencida, mas a dona dessas palavras é você. Minha emoção foi presenteada com beijos do João. Primeiro em minha bochecha, depois em minha boca, sua língua não satisfeita, arrepiando o meu pescoço. Amigão, a língua do João é uma delícia, mas os arrepios que meu corpo sentiu eu jamais havia sentido antes tão misturados com carinho e afeto. Tão respeitosas, as mãos de João não tocaram em mim. Quando mamãe chegou para me buscar, nos depedimos, Fefê, te quero muito, há tantas coisas que quero te dizer, amanhã você não quer vir aqui em casa à noite para conversarmos, quero sim, até amanhã.

Sábado, nove e meia da noite. Estou vestida e maquiada pronta para a grande noite. João é Xuxa, tão diferentes, tão atraentes e eu só tenho uma virgindade! Tomei há pouco uma decisão, sei qual vai ser meu homem, ou melhor, a decisão tomou conta de mim.
Arrumo minha bolsa, coloco a chave de casa, hoje não tenho hora para voltar, a camisinha que mamãe me deu há seis meses, para “quando chegar a hora”. Acho na bolsa o poema do João, abro e leio com doce carinho:
“Mal nos conheceremos e ao primeiro olhar
Nos tornaremos um só coração
Amando como se fossem mil...”
Paro na terceira linha, guardo o poema, estão buzinando por mim lá fora. A excitação me envolve por completo, me sinto inteira úmida e sensual, entro no Tempra com a música alta e saímos.

Conto 1 - As Uvas do Christiano

Uma breve introdução....

Em 1994, morando em Porto Alegre, empolgado pelas toneladas de livros que sempre li e sem muitos familiares e amigos por perto, decidi assumir a paixão pela literatura e ser um escritor. Um grande escritor.

Para saber como escrever (sempre com o raciocínio mecanicista de buscar o conhecimento formal para depois criar), cursei uma Oficina Literária, a "Alquimia da Palavra", coordenada por uma figura divertida, Sérgio Cortês.

Na metade da oficina, compromissos profissionais me levaram de volta para São Paulo. Perdi todo o contato com o Sérgio e meus colegas de oficina: Carmen Martinez, Neusa David, Roberto Pancaro, Hervê Saciloto, Laura Beatriz Flores, Guilherme Freitas, Cilon do Canto, Marina Martinez Nunes, Lúcia Ramos da Silva...quem sabe através desse BLOG eu não retome o contato com eles...e também deixei de ter meu conto publicado na antologia feita ao final da oficina.

Frustrado, guardei todo o material que escrevi até hoje, quando decidi publicá-los nesse BLOG. A tentação de melhorar os textos escritos há 15 anos atrás é enorme, mas resisti...e quem os ler terá a oportunidade de encontrá-los tal como foram escritos há tanto tempo...

Então com você, o primeiro conto!

Conto: As Uvas do Christiano
Autor: Rodrigo Guimarães Motta
Escrito em: 1994

Já 19:30 horas? Como a semana passou rápido, depois que o Sérgio me ligou, convidou para o curso de contos, agora sim vou poder me expressar para uma platéia digna de me ouvir.

Só mais um traguinho e eu já saio. Pensando bem, dois e eu pego meu texto e aí sim vou poder lê-lo para meu público.

- Sai daqui, seu velho bêbado!

Não tive tempo de acabar minha terceira cachaça e a velha bruxa me dá esse berro. Deixa ela, vou agora para a Oficina Literária do Sérgio Cortes, para bem longe dos seus gritos e resmungos. Pensar que um dia já amei essa diaba!

Cheguei! 20:15 horas, bom horário para chegar, estão todos na expectativa para saber quem eu sou, afinal já devem ter se apresentado uns aos outros e todo aquele blábláblá

Vou começar a falar de mim, ou melhor, vou me apresentar lendo o meu texto. A entrada triunfal, o que diria a velha bruxa!

- Deixe a leitura para depois, apresente sua pessoa agora.

Pôxa vida, dediquei toda a minha semana para essa gostosa expectativa de ler meu texto e agora estes pés-rapados não querem ouvi-lo...deixe estar que logo vem o troco.

Parece brincadeira, são 21:15 horas e ninguém deu pelo meu texto, vou distribui-lo, quando essa gentinha ler a primeira página, vai se arrepender de ter me desprezado.

21:30 horas, a corja não entende minha filosofia dicotômica pós-marxista neo-freudeana dos pobres X ricos que eu apreendi do texto do Fagundes, vou-me embora sem ler o meu texto, ha ha, vingança suprema.

- Christiano, espere aí.

Meu Deus do céu, o que esse Sérgio Cortez quer de mim? Na certa pedir desculpas, me chamar de volta, implorar meu perdão, uma chance a mais eu vou dar ao grupo, afinal eles não são tão ruins assim, talvez entendam alguns parágrafos do meu texto, serei magnânimo.

- Christiano, você atrapalha o grupo, por favor não volte mais.

O quê? Essa figurinha disse isso? Não responda Christiano, não se rebaixe. Vá embora de cabeça altiva sem olhar para trás. Sim, assim mesmo, valeu garotão, como papai me ensinou.

Diabos, 23:45 horas e eu ainda estou acordado, 8 tragos na cabeça, a velha bruxa roncando ao meu lado, seu bafo úmidoapodrecendo o ar. Quer saber duma coisa? Azar daqueles trouxas, eu não queria ler meu texto para eles mesmo!