Artigo: Cartazes de Marketing
Publicado: http://www.fpj.com.br/
Autor: Rodrigo Guimarães Motta – Diretor de Marketing FPJ e Faixa Preta 3 DAN (na época)Data: 2000
Numa iniciativa inédita, a Federação Paulista de Judô está iniciando nesta semana a distribuição às entidades filiadas de cartazes promocionais que visam a divulgação do judô nas respectivas comunidades onde cada associação ou clube atua.
Segundo Rodrigo Guimarães Motta - diretor de marketing da FPJ, o material faz parte de uma primeira etapa de uma série de atividades de micro-marketing que estão sendo planejadas ainda para este ano de 2000.
Para Rodrigo " a federação está distribuindo, inicialmente, 25 cartazes por entidade para, num segundo passo, reforçar as filiadas que manifestarem interesse em receber uma quantidade maior." O cartaz contém a seguinte mensagem: "Você não precisa ir longe para praticar judô. Existe sempre uma academia perto de você."
O material contém um espaço para a divulgação do nome e endereço do clube ou academia, e sua elaboração foi voltada no sentido de que cada peça seja colocada em pontos estratégicos nas redondezas de cada filiada. No total foram impressas 20 mil unidades.
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
Dica de Leitura 67 - Três mestres do Budo
Pessoal,
Esse livro, escrito por John Stevens e publicado no Brasil pela Editora Cultrix, é uma pequena jóia muito importante para a compreensão do desenvolvimento das artes marciais desde a Revolução Meiji até os dias de hoje. A partir das características individuais e da história de vida do místico Ueshiba (fundador do Aikido), do dedicado Funakoshi (fundador do Karatê Shotokan) e do insuperável, culto e sofisticado Jigoro Kano (fundador do Judô), é possível compreender como cada arte marcial se desenvolveu e prosperou. Uma referência importante para praticantes de artes marciais, interessados em praticá-las e apreciadores de boas biografias em geral.
Enjoy!
Esse livro, escrito por John Stevens e publicado no Brasil pela Editora Cultrix, é uma pequena jóia muito importante para a compreensão do desenvolvimento das artes marciais desde a Revolução Meiji até os dias de hoje. A partir das características individuais e da história de vida do místico Ueshiba (fundador do Aikido), do dedicado Funakoshi (fundador do Karatê Shotokan) e do insuperável, culto e sofisticado Jigoro Kano (fundador do Judô), é possível compreender como cada arte marcial se desenvolveu e prosperou. Uma referência importante para praticantes de artes marciais, interessados em praticá-las e apreciadores de boas biografias em geral.
Enjoy!
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009
As Antigas Iniciações (by Rodrigo Motta, 2005)
Para entendermos mais sobre as iniciações, vamos começar por conhecer a origem da palavra. Esta vem do latim Initiare, que significa início. Ao dividir esta palavra, descobre-se que esta vem de outra duas: in, para dentro e ire, ir. Iniciação pode então ser compreendida como o ato de ir para dentro, ingressar. A palavra possui então o duplo sentido de ingressar em algo ou de começo ou princípio do uma nova coisa.
Diversas civilizações e religiões têm rituais de iniciação, que consistem em provas que buscam iluminar os mistérios do desenvolvimento humano para os candidatos que serão iniciados. Os povos primitivos faziam o adolescente passar por provas perigosíssimas, ao final das quais ele podia passar a conviver com os adultos, em sua maioria guerreiros. Este convívio era vedado às mulheres e crianças, o que demonstra que desde seu início a iniciação já possuía um caráter de abrir as portas de sociedades “secretas” para os não-iniciados.
Apesar do caráter perigoso da iniciação, os candidatos não estavam dispostos a abrir mão da mesma, pois havia uma crença que esta permitia a eles entrar em contato com divindade que estava dentro de si. A partir da antiguidade clássica, a iniciação foi perdendo o seu rigor e passou a ter um caráter mais simbólico, onde prevalecem as de cunho moral e intelectual, mais adequadas aos estágios mais avançados da humanidade.
Muitos autores de diferentes vertentes sustentam que a iniciação simbólica está presente na sociedade atual, seja nas religiões, seja em esferas mais sutis, como pode ser visto nas abordagens junguianas sobre a evolução do homem na sociedade moderna (para maiores detalhes, estudar o livro João de Ferro, de Robert Bly).
Para compreender com mais profundidade o papel e a importância da iniciação na vida moderna e na maçonaria em particular, esse texto vai apresentar com mais detalhes quatro rituais iniciáticos que eram realizados pelos antigos: os egípcios, os hebreus, os essênios e os cristãos.
1. A Iniciação egípcia
A iniciação egípcia é relacionada com o corpo humano. Os egípcios praticavam a iniciação na Grande Pirâmide, que não passa de representação do corpo humano e de Deus, que se encontra em nosso interior (pirâmide vem de “PYR”, que equivale a fogo ou espírito). O aspirante inicia sua iniciação escalando a pirâmide, até chegar a uma pequena porta, onde deve entrar. Isso representa o fato de que o caminho do auto-desenvolvimento é estreito, quando comparado às outras opções que temos em nosso dia a dia.
O candidato é então recebido por dois iniciados, que o levam até um longo corredor. O candidato, após atravessar um extenso corredor, chega até um precipício. Este abismo representa as tentações dos desejos. Ele deve passar pelas tentações e baixar ao corpo obscuro de seu próprio corpo, descendo por uma estreita escada. Ao final da mesma, depara-se com uma janelinha, que conduz a outro corredor descendente. Ao continuar sua trilha, depara-se com o um aviso que prenuncia as provas que virão a seguir:
“Todos os que percorrem esta senda, sós e sem mirar para trás, serão purificados pelo fogo, água e ar”.
O final do corredor leva o candidato a encontrar três aspirantes, que estão vestidos com a máscara de Anúbis, que o avisam que ele se encontra à frente da porta da morte. Firme em sua decisão, o iniciado avança e chega a uma sala onde ardem piras cujas chamas se cruzam no centro da mesma. Se não tiver medo e for em frente, para sua surpresa verá que as chamas se apagam. O candidato passou pelo Fogo da Sabedoria, que só se abre àqueles com pensamentos e corpos puros, castos e fortes.
O caminho continua e o aspirante chega a uma sala inundada e para atravessar a água, é necessário levar as roupas ao alto com uma mão e nadar com a outra. A travessia não será fácil, pois a água é agitada, e a agitação representa os desejos. Vencidos seus desejos, o iniciando, na outra margem, veste-se e sobe uma escada, no topo da qual estão duas argolas.
Ao puxá-las, o chão se abaixa e fica o candidato suspenso no ar por alguns segundos, até o chão retornar aos seus pés. A terceira prova, a prova do ar, pertence ao mundo mental, que estimula e guia nosso cérebro rumo aos pensamentos altruístas.
Vencidas as três provas, o candidato é recebido por um sacerdote que o parabeniza e lhe oferece um copo de água pura, símbolo do aperfeiçoamento moral. Ajoelha-se então em frente à imagem de Osíris, Ísis e Hórus, a sagrada trindade. Está concluída a parte material da iniciação.
Esta, porém, continuará durante sua educação iniciática, já que o iniciado será tentado diversas vezes, para que ponha a prova seu aprendizado. Vai aprimorar o domínio sobre seu corpo através do jejum e do trabalho, a alma através da repressão consciente de suas paixões e o mental através da meditação. Após passar por essas provações, chega o momento da última prova, que consiste em passar a noite dentro de um sarcófago. Este representa o fato de que a verdade interna encontra-se em nós mesmos e para chegar a mesma é necessário mergulhar em nosso mundo interno.
2. A iniciação hebraica
Assim como a pirâmide, o tabernáculo representa o corpo físico. Como este se encontra no deserto, representa o corpo físico no deserto da matéria. O tabernáculo está orientado de leste para oeste. Enquanto o leste representa a frente do homem, o oeste é a parte inferior. O candidato, após entrar pela porta oriental, segue rumo o ocidente, até tocar o altar das oferendas e o altar dos sacrifícios, onde são queimadas as oferendas. Depois chega ao lavabo de bronze, que representa a purificação pela água, para depois penetrar no quarto oriental chamado Lugar Santo e finalmente o Santum Sanctorum, onde se acha a arca da aliança, o símbolo mais grandioso de todos.
A porta do tabernáculo estava na fachada oriental e estava coberta com uma cortina de linho de três cores: vermelho (Espírito Santo), amarelo (Filho) e azul (Pai). Vale ressaltar a presença da Trindade na iniciação hebraica, assim como já havia sido vista na egípcia.
Após a entrada no tabernáculo, o candidato chegava ao altar de bronze e no mesmo sacrificava um objeto pessoal, que devia ser consumido pelo fogo. Esta é a primeira grande lição dessa iniciação, o sacrifício de nossos instintos animais. A nuvem que cobre o altar representa nossos remorsos.
Em seguida o aspirante devia lavar-se no lavabo de bronze, grande pia que sempre se encontrava cheia de água, de forma a acalmar o fogo dos desejos que podem consumir o ser humano.
Em seguida, o candidato é levado para o Lugar Santo, que não possui nenhuma luz externa, apenas uma luz interna, para que ele tente se voltar para dentro de si e procurar o que há dentro de sua existência. Finalmente, tem ele acesso ao Santum Sanctorum, que representa a cabeça do homem, onde estão seus pensamentos mais íntimos. Nele, o aspirante encontrava finalmente a arca da aliança (representa o desenvolvimento da cabeça do homem em todas as idades), o pote de ouro do maná (mente que baixou ao corpo humano), a vara de Aarão (princípio criador refletido no sexo). Dois querubins guardam o recinto, um representando nossas paixões vulgares e o outro nossas aspirações e ideais. No centro do recinto está o Triângulo Sagrado de Shekinah, que simboliza a presença de Deus.
3. A iniciação essênia
A Ordem dos Essênios era constituída, no tempo de Jesus, pelo resto final das fraternidades dos profetas, organizadas por Samuel e possuíam dois centros principais, sendo um no Egito e outro na Palestina. O nome essênio deriva de uma palavra síria, assaya, ou médico. Eram os essênios responsáveis por curar tanto as enfermidades físicas quanto morais. Literatura pesquisada atesta que Jesus Cristo pertenceu à ordem.
As regras da ordem eram muito severas, para entrar nela era necessário um ano de noviciado, seguidos de dois anos de provas até chegar o momento de pronunciar terríveis juramentos e ser recebido na Ordem e não trair os segredos dela.
A iniciação essênia possui sete estados distintos da ascensão da alma para Deus. O primeiro é o estado da prece, onde as energias intelectuais são concentradas sobre Deus como objeto do pensamento. O segundo estado é o da prece mental, onde os fenômenos ilusórios do mundo invisível passam a ser vistos como uma significação do divino.
A evolução para o terceiro estado implica que o aspirante deve modelar sua vida prática de acordo com a teoria do segundo estado, isto é, realizar todo ato externo que se harmonize com significação interna. A conclusão desse estágio é quando o aspirante renuncia a todas as suas predileções, pensamentos e vontades. O quarto estágio, chamado de prece da quietude, exige que o aspirante imole seu eu e se entregue genuinamente na mão de Deus.
A passagem de um estágio para outro segue uma ordem lógica e o quinto estágio implica na total identificação da alma do homem com a de Deus. Está pronto o aspirante para o sexto estágio, o da prece estática, onde o aspirante é transportado acima e fora de si mesmo, representando uma união com a divindade por meio do amor positivo. Chega o momento do aspirante ir para o sétimo e final estágio, que é o rapto. Nele, o aspirante renuncia tudo que é corporal em volta de si, tornando-se puro espírito, capaz de se unir Deus. Este é o casamento, a entrada de Deus no interior do homem.
Para quem tem interesse em se aprofundar na iniciação essênia, no livro “A Iniciação de Jesus”, Manoel Kronfly dá detalhes deste processo de iniciação, utilizando o exemplo da iniciação de Jesus para tanto.
4. A iniciação cristã
A iniciação cristã tem início com o batismo, como disse Jesus, “Em verdade, te digo que não pode entrar no Reino de Deus senão aquele que for nascido da água e do Espírito Santo”. Jesus inclusive cumpriu este ritual no Rio Jordão, que tem semelhanças com a prova da água na pirâmide (iniciação egípcia) e a limpeza no lavabo de bronze (iniciação hebraica).
O símbolo externo do batismo nos indica a necessidade de pureza interna de nossos desejos e paixões. Após essa etapa, cabe ao cristão sofrer a prova da tentação, onde ele deve escolher para onde vai direcionar seu potencial criativo, se para o bem ou para o mal. Tem-se em seguida a transfiguração, processo do espírito que ilumina o corpo, onde o cristão é pobre, mas pode conceder riquezas e é quieto, mas inspira as mais elevadas idéias nos seus semelhantes.
Deve então o iniciado passar por três sacrifícios: o do corpo físico (onde o homem passa a trabalhar pelo bem estar físico de todos e não apenas do seu individual), o da alma (soma-se ao aprendizado anterior a preocupação com o bem-estar espiritual dos companheiros) e pela crucificação, onde o iniciado se coloca à disposição para morrer pelos demais, sem aspirar a recompensa alguma.
Pelas suas semelhanças, percebem-se nas iniciações apresentadas diversas semelhanças entre si e com as iniciações maçônicas, que se dúvida tem sua origem no início da humanidade, tendo bebido de diversas fontes e provavelmente não apenas essas estudadas e brevemente mencionadas nesse trabalho. De qualquer forma, fica a reflexão que o processo iniciático, deve ser visto como uma representação externa de nossa vida interna e quando é feito com seriedade e dedicação, conduz ao auto-desenvolvimento pessoal e através do mesmo ao desenvolvimento da sociedade, independente de qual iniciação escolhe-se por adotar.
Referências Bibliográficas
Adoum, Jorge – As chaves do reino interno: Pensamento, 2004.
Adoum, Jorge – Grau de aprendiz e seus mistérios: Pensamento, 2002.
Aslan, Nicolas – Comentários ao ritual de aprendiz: Maçônica, 1990.
Bly, Robert – João de Ferro: Campus, 1991.
Cerinotti, Ângela – Maçonaria: Globo, 2004.
Konfly, Manoel – A iniciação de Jesus: Pensamento, 1944.
Diversas civilizações e religiões têm rituais de iniciação, que consistem em provas que buscam iluminar os mistérios do desenvolvimento humano para os candidatos que serão iniciados. Os povos primitivos faziam o adolescente passar por provas perigosíssimas, ao final das quais ele podia passar a conviver com os adultos, em sua maioria guerreiros. Este convívio era vedado às mulheres e crianças, o que demonstra que desde seu início a iniciação já possuía um caráter de abrir as portas de sociedades “secretas” para os não-iniciados.
Apesar do caráter perigoso da iniciação, os candidatos não estavam dispostos a abrir mão da mesma, pois havia uma crença que esta permitia a eles entrar em contato com divindade que estava dentro de si. A partir da antiguidade clássica, a iniciação foi perdendo o seu rigor e passou a ter um caráter mais simbólico, onde prevalecem as de cunho moral e intelectual, mais adequadas aos estágios mais avançados da humanidade.
Muitos autores de diferentes vertentes sustentam que a iniciação simbólica está presente na sociedade atual, seja nas religiões, seja em esferas mais sutis, como pode ser visto nas abordagens junguianas sobre a evolução do homem na sociedade moderna (para maiores detalhes, estudar o livro João de Ferro, de Robert Bly).
Para compreender com mais profundidade o papel e a importância da iniciação na vida moderna e na maçonaria em particular, esse texto vai apresentar com mais detalhes quatro rituais iniciáticos que eram realizados pelos antigos: os egípcios, os hebreus, os essênios e os cristãos.
1. A Iniciação egípcia
A iniciação egípcia é relacionada com o corpo humano. Os egípcios praticavam a iniciação na Grande Pirâmide, que não passa de representação do corpo humano e de Deus, que se encontra em nosso interior (pirâmide vem de “PYR”, que equivale a fogo ou espírito). O aspirante inicia sua iniciação escalando a pirâmide, até chegar a uma pequena porta, onde deve entrar. Isso representa o fato de que o caminho do auto-desenvolvimento é estreito, quando comparado às outras opções que temos em nosso dia a dia.
O candidato é então recebido por dois iniciados, que o levam até um longo corredor. O candidato, após atravessar um extenso corredor, chega até um precipício. Este abismo representa as tentações dos desejos. Ele deve passar pelas tentações e baixar ao corpo obscuro de seu próprio corpo, descendo por uma estreita escada. Ao final da mesma, depara-se com uma janelinha, que conduz a outro corredor descendente. Ao continuar sua trilha, depara-se com o um aviso que prenuncia as provas que virão a seguir:
“Todos os que percorrem esta senda, sós e sem mirar para trás, serão purificados pelo fogo, água e ar”.
O final do corredor leva o candidato a encontrar três aspirantes, que estão vestidos com a máscara de Anúbis, que o avisam que ele se encontra à frente da porta da morte. Firme em sua decisão, o iniciado avança e chega a uma sala onde ardem piras cujas chamas se cruzam no centro da mesma. Se não tiver medo e for em frente, para sua surpresa verá que as chamas se apagam. O candidato passou pelo Fogo da Sabedoria, que só se abre àqueles com pensamentos e corpos puros, castos e fortes.
O caminho continua e o aspirante chega a uma sala inundada e para atravessar a água, é necessário levar as roupas ao alto com uma mão e nadar com a outra. A travessia não será fácil, pois a água é agitada, e a agitação representa os desejos. Vencidos seus desejos, o iniciando, na outra margem, veste-se e sobe uma escada, no topo da qual estão duas argolas.
Ao puxá-las, o chão se abaixa e fica o candidato suspenso no ar por alguns segundos, até o chão retornar aos seus pés. A terceira prova, a prova do ar, pertence ao mundo mental, que estimula e guia nosso cérebro rumo aos pensamentos altruístas.
Vencidas as três provas, o candidato é recebido por um sacerdote que o parabeniza e lhe oferece um copo de água pura, símbolo do aperfeiçoamento moral. Ajoelha-se então em frente à imagem de Osíris, Ísis e Hórus, a sagrada trindade. Está concluída a parte material da iniciação.
Esta, porém, continuará durante sua educação iniciática, já que o iniciado será tentado diversas vezes, para que ponha a prova seu aprendizado. Vai aprimorar o domínio sobre seu corpo através do jejum e do trabalho, a alma através da repressão consciente de suas paixões e o mental através da meditação. Após passar por essas provações, chega o momento da última prova, que consiste em passar a noite dentro de um sarcófago. Este representa o fato de que a verdade interna encontra-se em nós mesmos e para chegar a mesma é necessário mergulhar em nosso mundo interno.
2. A iniciação hebraica
Assim como a pirâmide, o tabernáculo representa o corpo físico. Como este se encontra no deserto, representa o corpo físico no deserto da matéria. O tabernáculo está orientado de leste para oeste. Enquanto o leste representa a frente do homem, o oeste é a parte inferior. O candidato, após entrar pela porta oriental, segue rumo o ocidente, até tocar o altar das oferendas e o altar dos sacrifícios, onde são queimadas as oferendas. Depois chega ao lavabo de bronze, que representa a purificação pela água, para depois penetrar no quarto oriental chamado Lugar Santo e finalmente o Santum Sanctorum, onde se acha a arca da aliança, o símbolo mais grandioso de todos.
A porta do tabernáculo estava na fachada oriental e estava coberta com uma cortina de linho de três cores: vermelho (Espírito Santo), amarelo (Filho) e azul (Pai). Vale ressaltar a presença da Trindade na iniciação hebraica, assim como já havia sido vista na egípcia.
Após a entrada no tabernáculo, o candidato chegava ao altar de bronze e no mesmo sacrificava um objeto pessoal, que devia ser consumido pelo fogo. Esta é a primeira grande lição dessa iniciação, o sacrifício de nossos instintos animais. A nuvem que cobre o altar representa nossos remorsos.
Em seguida o aspirante devia lavar-se no lavabo de bronze, grande pia que sempre se encontrava cheia de água, de forma a acalmar o fogo dos desejos que podem consumir o ser humano.
Em seguida, o candidato é levado para o Lugar Santo, que não possui nenhuma luz externa, apenas uma luz interna, para que ele tente se voltar para dentro de si e procurar o que há dentro de sua existência. Finalmente, tem ele acesso ao Santum Sanctorum, que representa a cabeça do homem, onde estão seus pensamentos mais íntimos. Nele, o aspirante encontrava finalmente a arca da aliança (representa o desenvolvimento da cabeça do homem em todas as idades), o pote de ouro do maná (mente que baixou ao corpo humano), a vara de Aarão (princípio criador refletido no sexo). Dois querubins guardam o recinto, um representando nossas paixões vulgares e o outro nossas aspirações e ideais. No centro do recinto está o Triângulo Sagrado de Shekinah, que simboliza a presença de Deus.
3. A iniciação essênia
A Ordem dos Essênios era constituída, no tempo de Jesus, pelo resto final das fraternidades dos profetas, organizadas por Samuel e possuíam dois centros principais, sendo um no Egito e outro na Palestina. O nome essênio deriva de uma palavra síria, assaya, ou médico. Eram os essênios responsáveis por curar tanto as enfermidades físicas quanto morais. Literatura pesquisada atesta que Jesus Cristo pertenceu à ordem.
As regras da ordem eram muito severas, para entrar nela era necessário um ano de noviciado, seguidos de dois anos de provas até chegar o momento de pronunciar terríveis juramentos e ser recebido na Ordem e não trair os segredos dela.
A iniciação essênia possui sete estados distintos da ascensão da alma para Deus. O primeiro é o estado da prece, onde as energias intelectuais são concentradas sobre Deus como objeto do pensamento. O segundo estado é o da prece mental, onde os fenômenos ilusórios do mundo invisível passam a ser vistos como uma significação do divino.
A evolução para o terceiro estado implica que o aspirante deve modelar sua vida prática de acordo com a teoria do segundo estado, isto é, realizar todo ato externo que se harmonize com significação interna. A conclusão desse estágio é quando o aspirante renuncia a todas as suas predileções, pensamentos e vontades. O quarto estágio, chamado de prece da quietude, exige que o aspirante imole seu eu e se entregue genuinamente na mão de Deus.
A passagem de um estágio para outro segue uma ordem lógica e o quinto estágio implica na total identificação da alma do homem com a de Deus. Está pronto o aspirante para o sexto estágio, o da prece estática, onde o aspirante é transportado acima e fora de si mesmo, representando uma união com a divindade por meio do amor positivo. Chega o momento do aspirante ir para o sétimo e final estágio, que é o rapto. Nele, o aspirante renuncia tudo que é corporal em volta de si, tornando-se puro espírito, capaz de se unir Deus. Este é o casamento, a entrada de Deus no interior do homem.
Para quem tem interesse em se aprofundar na iniciação essênia, no livro “A Iniciação de Jesus”, Manoel Kronfly dá detalhes deste processo de iniciação, utilizando o exemplo da iniciação de Jesus para tanto.
4. A iniciação cristã
A iniciação cristã tem início com o batismo, como disse Jesus, “Em verdade, te digo que não pode entrar no Reino de Deus senão aquele que for nascido da água e do Espírito Santo”. Jesus inclusive cumpriu este ritual no Rio Jordão, que tem semelhanças com a prova da água na pirâmide (iniciação egípcia) e a limpeza no lavabo de bronze (iniciação hebraica).
O símbolo externo do batismo nos indica a necessidade de pureza interna de nossos desejos e paixões. Após essa etapa, cabe ao cristão sofrer a prova da tentação, onde ele deve escolher para onde vai direcionar seu potencial criativo, se para o bem ou para o mal. Tem-se em seguida a transfiguração, processo do espírito que ilumina o corpo, onde o cristão é pobre, mas pode conceder riquezas e é quieto, mas inspira as mais elevadas idéias nos seus semelhantes.
Deve então o iniciado passar por três sacrifícios: o do corpo físico (onde o homem passa a trabalhar pelo bem estar físico de todos e não apenas do seu individual), o da alma (soma-se ao aprendizado anterior a preocupação com o bem-estar espiritual dos companheiros) e pela crucificação, onde o iniciado se coloca à disposição para morrer pelos demais, sem aspirar a recompensa alguma.
Pelas suas semelhanças, percebem-se nas iniciações apresentadas diversas semelhanças entre si e com as iniciações maçônicas, que se dúvida tem sua origem no início da humanidade, tendo bebido de diversas fontes e provavelmente não apenas essas estudadas e brevemente mencionadas nesse trabalho. De qualquer forma, fica a reflexão que o processo iniciático, deve ser visto como uma representação externa de nossa vida interna e quando é feito com seriedade e dedicação, conduz ao auto-desenvolvimento pessoal e através do mesmo ao desenvolvimento da sociedade, independente de qual iniciação escolhe-se por adotar.
Referências Bibliográficas
Adoum, Jorge – As chaves do reino interno: Pensamento, 2004.
Adoum, Jorge – Grau de aprendiz e seus mistérios: Pensamento, 2002.
Aslan, Nicolas – Comentários ao ritual de aprendiz: Maçônica, 1990.
Bly, Robert – João de Ferro: Campus, 1991.
Cerinotti, Ângela – Maçonaria: Globo, 2004.
Konfly, Manoel – A iniciação de Jesus: Pensamento, 1944.
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009
Dica de Leitura 66 - O Círculo da Cruz
Pessoal,
Esse livro, escrito por Iain Pears, mesmo autor do magnífico "O Sonho de Cipião", conta, de 4 perspectivas diferentes (1 nobre italiano, 1 decifrador de códigos, 1 proprietáro de terras empobrecido e 1 historiador), a história do cruel assassinato do religioso Grove, no século XVII em Oxford, que culmina com o enforcamento da jovem Sarah Blundy.
4 perspectivas diferentes. Quem terá a razão. Um livro muito bem-escrito, que consegue conciliar metodologia científica, política (na época, seguidores de Cromwell X monarquistas), religião e, acreditem se quiser, a chegada de um novo messias.
Estonteante. Como disse Pilatos, "onde está a verdade?".
Boa Leitura!
Esse livro, escrito por Iain Pears, mesmo autor do magnífico "O Sonho de Cipião", conta, de 4 perspectivas diferentes (1 nobre italiano, 1 decifrador de códigos, 1 proprietáro de terras empobrecido e 1 historiador), a história do cruel assassinato do religioso Grove, no século XVII em Oxford, que culmina com o enforcamento da jovem Sarah Blundy.
4 perspectivas diferentes. Quem terá a razão. Um livro muito bem-escrito, que consegue conciliar metodologia científica, política (na época, seguidores de Cromwell X monarquistas), religião e, acreditem se quiser, a chegada de um novo messias.
Estonteante. Como disse Pilatos, "onde está a verdade?".
Boa Leitura!
Conto 8 - Beijos Sensuais
Conto: Beijos Sensuais
Autor: Rodrigo Guimarães Motta
Escrito em: 1994
Nus, nós dois, na noite fria de inverno. Consumada pela intensidade de meus beijos, jaz inerte ao meu lado. Não paro de admirar seu corpo, os seios firmes e alvos contrastanto com os mamilos vermelhos. A cintura esguia, o sexo rosa cercado pelo cabelo muito negro.
E sorri enquanto dorme! Prova mais do que suficiente do prazer que encontra em nossos encontros furtivos. Se apenas soubessem a intensidade do nosso amor e paixão, imaginassem como seu pescoço procura minhas carícias e toda você por me ter dentro, inteiro dentro...
Desgraçadamente sua família e amigos pouco se importam com a felicidade, que cede lugar às aparências. Arranjar um esposo de conveniência, com a bolsa recheada. Até meu título não os comove. Afinal, há muito o ouro se foi, nos dias que passam um nobre sem o metal vale tanto quanto o mais insignificante plebeu.
Força alguma, porém, vai nos manter distantes. Eu, que acreditei anos e anos que emoções não se criam, a repetição de amores, beijos, guerras e vinganças transcorrem com monótona música ao fundo século após século, reconheço a monstruosidade do meu erro.
Desde aquele primeiro encontro, senti algo diferente. Não foi o entusiasmo que se rendeu as minhas carícias e luxúrias, pois assim tantas outras se comportaram. Entretanto, loiras e morenas, princesas e camponesas do novo mundo até o mais extremo oriente, mal sabem da minha fama de amante voraz e insaciável me abandonam, portas se fecham.
Com você, não. Daquela vez e nas muitas outras em que na noite úmida e convidativa a visitei, estava sempre sorrindo, pronta para abrir sua alcova e penetrar em todos os prazeres que o homem, esse animalzinho rasteiro que já fui, encontra em perpetuar sua espécie dessa forma consciente e inconsciente.
O infinito no tempo e espaço em que tive a solidão companheira, permitiu o distanciamento necessário para transcender o emaranhado da paixão e quebrar o círculo chamado moral que foi criado para preservar e não superar essas sensações.
Tanto esforço e sacrifício para atingir a superior condição de independência absoluta, tudo colocado de lado por meu amor. A titãnica sensualidade do prazer põe de joelhos minha vontade cerebral dá passagem à triunfante descoberta de gemidos e carinhos que se renovam a cada encontro nosso.
Ninguém ao meu lado, a parede em ruínas, o preço que paguei para ter a força de tudo fazer dentro do limite infinito de minha individualidade. Esses mundos e personagens fragmentados em que vivo terão um príncipe, agora acompanhado por sua consorte. Das trevas protetoras só sairemos para esporadicamente receber o vinho da alma, permitir a poucos mortais o contato com a deidade que tanto os fascina e assusta.
Eis que abre os olhos, querida! Sim, vamos nos corromper desse delírio um pouco mais, antes que a escuridão, nossa única cúmplice, parta e com ela eu também.
- Acordado e falando bobagens! – os olhos azuis se abriram – eu já estava acordada há algum tempo.
- Ora,....Você sabe que não são bobagens – era evidente o seu embaraço.
- Estou brincando, meu poeta querido – se aproximou dele, suas pernas agilmente entrelaçaram o quadril do companheiro – Adoro suas palavras tão doces, ainda mais faladas por um amante tão dedicado – Procurou com os dedos o membro dele, e riu feliz – e também insaciável!
Subjugado pela força dessa mulher, abraçou seu torso e por cima dela, penetrou com sofreguidão. Seus lábios e língua beijando e mordendo delicadamente, seios, braços, e por fim aquele pescoço delicado.
Drácula e sua amante gozaram juntos.
Autor: Rodrigo Guimarães Motta
Escrito em: 1994
Nus, nós dois, na noite fria de inverno. Consumada pela intensidade de meus beijos, jaz inerte ao meu lado. Não paro de admirar seu corpo, os seios firmes e alvos contrastanto com os mamilos vermelhos. A cintura esguia, o sexo rosa cercado pelo cabelo muito negro.
E sorri enquanto dorme! Prova mais do que suficiente do prazer que encontra em nossos encontros furtivos. Se apenas soubessem a intensidade do nosso amor e paixão, imaginassem como seu pescoço procura minhas carícias e toda você por me ter dentro, inteiro dentro...
Desgraçadamente sua família e amigos pouco se importam com a felicidade, que cede lugar às aparências. Arranjar um esposo de conveniência, com a bolsa recheada. Até meu título não os comove. Afinal, há muito o ouro se foi, nos dias que passam um nobre sem o metal vale tanto quanto o mais insignificante plebeu.
Força alguma, porém, vai nos manter distantes. Eu, que acreditei anos e anos que emoções não se criam, a repetição de amores, beijos, guerras e vinganças transcorrem com monótona música ao fundo século após século, reconheço a monstruosidade do meu erro.
Desde aquele primeiro encontro, senti algo diferente. Não foi o entusiasmo que se rendeu as minhas carícias e luxúrias, pois assim tantas outras se comportaram. Entretanto, loiras e morenas, princesas e camponesas do novo mundo até o mais extremo oriente, mal sabem da minha fama de amante voraz e insaciável me abandonam, portas se fecham.
Com você, não. Daquela vez e nas muitas outras em que na noite úmida e convidativa a visitei, estava sempre sorrindo, pronta para abrir sua alcova e penetrar em todos os prazeres que o homem, esse animalzinho rasteiro que já fui, encontra em perpetuar sua espécie dessa forma consciente e inconsciente.
O infinito no tempo e espaço em que tive a solidão companheira, permitiu o distanciamento necessário para transcender o emaranhado da paixão e quebrar o círculo chamado moral que foi criado para preservar e não superar essas sensações.
Tanto esforço e sacrifício para atingir a superior condição de independência absoluta, tudo colocado de lado por meu amor. A titãnica sensualidade do prazer põe de joelhos minha vontade cerebral dá passagem à triunfante descoberta de gemidos e carinhos que se renovam a cada encontro nosso.
Ninguém ao meu lado, a parede em ruínas, o preço que paguei para ter a força de tudo fazer dentro do limite infinito de minha individualidade. Esses mundos e personagens fragmentados em que vivo terão um príncipe, agora acompanhado por sua consorte. Das trevas protetoras só sairemos para esporadicamente receber o vinho da alma, permitir a poucos mortais o contato com a deidade que tanto os fascina e assusta.
Eis que abre os olhos, querida! Sim, vamos nos corromper desse delírio um pouco mais, antes que a escuridão, nossa única cúmplice, parta e com ela eu também.
- Acordado e falando bobagens! – os olhos azuis se abriram – eu já estava acordada há algum tempo.
- Ora,....Você sabe que não são bobagens – era evidente o seu embaraço.
- Estou brincando, meu poeta querido – se aproximou dele, suas pernas agilmente entrelaçaram o quadril do companheiro – Adoro suas palavras tão doces, ainda mais faladas por um amante tão dedicado – Procurou com os dedos o membro dele, e riu feliz – e também insaciável!
Subjugado pela força dessa mulher, abraçou seu torso e por cima dela, penetrou com sofreguidão. Seus lábios e língua beijando e mordendo delicadamente, seios, braços, e por fim aquele pescoço delicado.
Drácula e sua amante gozaram juntos.
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
Conto 7 - Paquerinha Urbana
Conto: Paquerinha Urbana
Autor: Rodrigo Guimarães Motta
Escrito em: 1994
O edifício, de classe média, ficava em um bairro cinzento e anônimo da capital. Cida morava no segundo andar, enquanto sua melhor amiga, Lurdinha, estava no de cima. As duas empregadas domésticas sempre conseguiam um tempo à tarde para fofocar. Pouco importava o assunto que iniciava a conversa, logo suas paqueras eram o centro do papo. Naquela quarta não era diferente.
- Ai Lurdinha, desde que você começou a sair com o João Batista eu tenho me sentido sozinha. Nem no pagode de sábado tenho ido – a morena peituda e manhosa da Cida se queixava para a amiga no boteco aonde iam tomar cafezinho e fumar cigarro barato.
- Sozinha porque você quer. Com esse corpo, não tem homem que não te queira. Até meu patrão não tira o olho de você.
- Deus me livre, não quero incomodação com homem casado. Estou a fim de um gatão trabalhador, bom de beijo e com ginga mole, para dançarmos no fim de semana – Cida sorriu maliciosa – que nem o João Batista...
- Nem chegue perto que esse já tem dono, sua galinha. Agora, vou te ajudar, que assim você larga do meu pé. O João tem um primo do interior, jogador de futebol, que veio fazer testes nos times da capital. Seu nome é Dorivaldo e tem um bumbum de tirar o fôlego – a baixinha Lurdinha olhou sugestivamente para a amiga, que retribuiu o olhar.
- Como vou fazer para conhecer ele?
- A gente liga para o João e marca de ir os quatro juntos dançar no sábado.
- Tá louca? Se não me dou bem com o cara vai ser muito chato. Que tal combinar com ele de me encontrar amanhã no centro, na frente daquela sorveteria que sempre vamos?
- A madame quer tudo de mão beijada, não é? Para sua sorte, adoro dar uma de pombo-correio. Vou marcar com o Dorivaldo. Coloque uma blusa vermelha para ele te reconhecer – Lurdinha tomou o último gole de café e se levantou – Vamos emborar que tenho que preparar o jantar.
- Minha amigona! – Cida exclamou ao mesmo tempo que dava um beliscão no traseiro da amiga. Saiu correndo, os peitos chacoalhando sob a camisa folgada. A outra foi atrás para dar o troco. O caixa do bar ainda gritou para as duas que corriam:
- Gostosas!
Cida olhou ansiosa para o relógio. Faltavam dez minutos para as seis horas. Lurdinha tinha combinado com Dorivaldo às cinco e quarenta e cinco, ele já estava atrasado.
Ela tinha um pressentimento que ele não ia vir. Afinal essa quinta não ia andando como deveria. A patroa não gostou nada dela tirar quinta a noite de folga. Haviam discutido pouco antes de Cida sair. Nervosa, derramou o suco que estava tomando na blusa vermelha. Fizeram as pazes, mas ela teve que colocar outra blusa, azul.
Seis e dez. Ela já havia roído todas as unhas da mão direita. O filho da pu.. não ia vir. Nesse momento, alguém bateu no seu ombro e falou:
- Sua blusa está desabotoada atrás.
- O que? – Cida tirou a mão da boca e olhou para o moreno, cara de malandro, calça de brim e camisa estampada.
Ele repetiu que a blusa dela estava aberta atrás, com sua voz atrevida.
- Ih, que vexame, obrigado por me avisar.
- Se quiser posso fechar para você – os olhos dele brilhavam, ávidos.
- Cida agradeceu, impaciente. Já estava entendendo qual era a do cara. Falou que ia ao banheiro da sorveteria fechar. O moreno não se deu por achado, argumentou que ia com ela, o banheiro servia tanto para homem quanto pra mulher.
- Engraçadinho. Acontece que eu quero fazer xixi também – percebeu que fora muito agressiva e se arrependeu. Afinal, ele era um gatinho. Cara de pau, mas um gatinho.
Os olhos do moreno não perderam a avidez, mas se tornaram também duros e penetrantes – Melhor ainda. Isso me lembra de casa, mamãe vai ao banheiro de porta aberta.
Era o fim! Cida, furiosa, se esqueceu do que tinha ido fazer ali. Toda raiva que podia sentir estava concentrada no inimigo à sua frente. Não tinha nada a ver com a vida dele, respondeu, e só mijava de porta fechada.
Ficaram quietos por alguns segundos. Ambos se odiando e se admirando, como duas feras se preparando para o confronto. Cida vacilou, ia pedir desculpas e ir embora numa boa, o Dorivaldo não vinha mais. Mas para ele a rixa não havia acabado.
- Tão brava, deixa eu te dar um beijinho para te acalmar.
- Vá pedir para a sua mamãe – saiu correndo na rua movimentada do centro da cidade. Com os olhos cheios de água. O dia fora tão ruim que Cida só queria voltar para o seu quartinho no segundo andar e chorar um pouco. O ponto era a dois quarteirões dali e ela partiu no ônibus lotado, o cheiro da colônia que havia passado se perdendo naquela confusão de odores e suores.
No dia seguinte, Lurdinha encontrou uma Cida diferente no boteco. O copo, de café frio, o rosto nublado, nada convidava para o papo.
- Oi. O João me ligou e falou que deste o cano no Dorivaldo. O que aconteceu?
- Eu dei o cano? – Cida explodiu – Esperei o viadin.. um tempão, roí minhas unhas, briguei com um cara e nada do Dorivaldo. Não quero ver esse aí nem pintado de ouro na minha frente – Cida tomou o café frio de um gole só – E essa mer.. tá fria!
- Não é possível. O João me falou que o primo ficou até sete da noite na sorveteria, mas não viu nenhuma menina de blusa vermelha.
Cida começou a pensar rápido. No seu rosto a raiva virou espanto e desconsolo – É mesmo! Eu derramei suco na blusa antes de sair. Como estava com pressa, coloquei uma outra azul. Ele não podia me reconhecer mesmo – completou com voz chorosa.
- Não fica assim, boba. Eu ligo para o João e explico o que aconteceu. Vamos no pagode sábado e vocês tiram o atraso – Lurdinha piscou o olho – Veja a foto que o João me deu ontem. O moreno do lado dele é o Dorivaldo. Lindo, hein?
Cida mal acreditava no que estava vendo. O Dorivaldo da foto era o mesmo moreno de calça brim e camisa estampada que ela havia brigado na véspera. Sua primeira reação foi falar que não ia sair com ele. Logo, porém, se lembrou do arrepio que havia sentido quando ele se ofereceu para abotoar sua blusa e a raiva e atração cresceram emaranhadas dentro dela na discussão. Cafajeste, mas com aquela cara de pau, deveria ser muito interessante. Cida pensou que ela sabia como domar esse tipo de homem. O arrepio voltou e ela empinou os peitos, mais provocante do que nunca.
- Combinado. Sábado então – As duas se levantaram, Lurdinha tomou um beijo estralado da amiga e saíram as duas de mãos dadas do bar, rumo ao prédio cinzento que moravam. O caixa, vendo as duas saírem rebolando tão fasceiras, não resistiu:
- Gostosas!
Autor: Rodrigo Guimarães Motta
Escrito em: 1994
O edifício, de classe média, ficava em um bairro cinzento e anônimo da capital. Cida morava no segundo andar, enquanto sua melhor amiga, Lurdinha, estava no de cima. As duas empregadas domésticas sempre conseguiam um tempo à tarde para fofocar. Pouco importava o assunto que iniciava a conversa, logo suas paqueras eram o centro do papo. Naquela quarta não era diferente.
- Ai Lurdinha, desde que você começou a sair com o João Batista eu tenho me sentido sozinha. Nem no pagode de sábado tenho ido – a morena peituda e manhosa da Cida se queixava para a amiga no boteco aonde iam tomar cafezinho e fumar cigarro barato.
- Sozinha porque você quer. Com esse corpo, não tem homem que não te queira. Até meu patrão não tira o olho de você.
- Deus me livre, não quero incomodação com homem casado. Estou a fim de um gatão trabalhador, bom de beijo e com ginga mole, para dançarmos no fim de semana – Cida sorriu maliciosa – que nem o João Batista...
- Nem chegue perto que esse já tem dono, sua galinha. Agora, vou te ajudar, que assim você larga do meu pé. O João tem um primo do interior, jogador de futebol, que veio fazer testes nos times da capital. Seu nome é Dorivaldo e tem um bumbum de tirar o fôlego – a baixinha Lurdinha olhou sugestivamente para a amiga, que retribuiu o olhar.
- Como vou fazer para conhecer ele?
- A gente liga para o João e marca de ir os quatro juntos dançar no sábado.
- Tá louca? Se não me dou bem com o cara vai ser muito chato. Que tal combinar com ele de me encontrar amanhã no centro, na frente daquela sorveteria que sempre vamos?
- A madame quer tudo de mão beijada, não é? Para sua sorte, adoro dar uma de pombo-correio. Vou marcar com o Dorivaldo. Coloque uma blusa vermelha para ele te reconhecer – Lurdinha tomou o último gole de café e se levantou – Vamos emborar que tenho que preparar o jantar.
- Minha amigona! – Cida exclamou ao mesmo tempo que dava um beliscão no traseiro da amiga. Saiu correndo, os peitos chacoalhando sob a camisa folgada. A outra foi atrás para dar o troco. O caixa do bar ainda gritou para as duas que corriam:
- Gostosas!
Cida olhou ansiosa para o relógio. Faltavam dez minutos para as seis horas. Lurdinha tinha combinado com Dorivaldo às cinco e quarenta e cinco, ele já estava atrasado.
Ela tinha um pressentimento que ele não ia vir. Afinal essa quinta não ia andando como deveria. A patroa não gostou nada dela tirar quinta a noite de folga. Haviam discutido pouco antes de Cida sair. Nervosa, derramou o suco que estava tomando na blusa vermelha. Fizeram as pazes, mas ela teve que colocar outra blusa, azul.
Seis e dez. Ela já havia roído todas as unhas da mão direita. O filho da pu.. não ia vir. Nesse momento, alguém bateu no seu ombro e falou:
- Sua blusa está desabotoada atrás.
- O que? – Cida tirou a mão da boca e olhou para o moreno, cara de malandro, calça de brim e camisa estampada.
Ele repetiu que a blusa dela estava aberta atrás, com sua voz atrevida.
- Ih, que vexame, obrigado por me avisar.
- Se quiser posso fechar para você – os olhos dele brilhavam, ávidos.
- Cida agradeceu, impaciente. Já estava entendendo qual era a do cara. Falou que ia ao banheiro da sorveteria fechar. O moreno não se deu por achado, argumentou que ia com ela, o banheiro servia tanto para homem quanto pra mulher.
- Engraçadinho. Acontece que eu quero fazer xixi também – percebeu que fora muito agressiva e se arrependeu. Afinal, ele era um gatinho. Cara de pau, mas um gatinho.
Os olhos do moreno não perderam a avidez, mas se tornaram também duros e penetrantes – Melhor ainda. Isso me lembra de casa, mamãe vai ao banheiro de porta aberta.
Era o fim! Cida, furiosa, se esqueceu do que tinha ido fazer ali. Toda raiva que podia sentir estava concentrada no inimigo à sua frente. Não tinha nada a ver com a vida dele, respondeu, e só mijava de porta fechada.
Ficaram quietos por alguns segundos. Ambos se odiando e se admirando, como duas feras se preparando para o confronto. Cida vacilou, ia pedir desculpas e ir embora numa boa, o Dorivaldo não vinha mais. Mas para ele a rixa não havia acabado.
- Tão brava, deixa eu te dar um beijinho para te acalmar.
- Vá pedir para a sua mamãe – saiu correndo na rua movimentada do centro da cidade. Com os olhos cheios de água. O dia fora tão ruim que Cida só queria voltar para o seu quartinho no segundo andar e chorar um pouco. O ponto era a dois quarteirões dali e ela partiu no ônibus lotado, o cheiro da colônia que havia passado se perdendo naquela confusão de odores e suores.
No dia seguinte, Lurdinha encontrou uma Cida diferente no boteco. O copo, de café frio, o rosto nublado, nada convidava para o papo.
- Oi. O João me ligou e falou que deste o cano no Dorivaldo. O que aconteceu?
- Eu dei o cano? – Cida explodiu – Esperei o viadin.. um tempão, roí minhas unhas, briguei com um cara e nada do Dorivaldo. Não quero ver esse aí nem pintado de ouro na minha frente – Cida tomou o café frio de um gole só – E essa mer.. tá fria!
- Não é possível. O João me falou que o primo ficou até sete da noite na sorveteria, mas não viu nenhuma menina de blusa vermelha.
Cida começou a pensar rápido. No seu rosto a raiva virou espanto e desconsolo – É mesmo! Eu derramei suco na blusa antes de sair. Como estava com pressa, coloquei uma outra azul. Ele não podia me reconhecer mesmo – completou com voz chorosa.
- Não fica assim, boba. Eu ligo para o João e explico o que aconteceu. Vamos no pagode sábado e vocês tiram o atraso – Lurdinha piscou o olho – Veja a foto que o João me deu ontem. O moreno do lado dele é o Dorivaldo. Lindo, hein?
Cida mal acreditava no que estava vendo. O Dorivaldo da foto era o mesmo moreno de calça brim e camisa estampada que ela havia brigado na véspera. Sua primeira reação foi falar que não ia sair com ele. Logo, porém, se lembrou do arrepio que havia sentido quando ele se ofereceu para abotoar sua blusa e a raiva e atração cresceram emaranhadas dentro dela na discussão. Cafajeste, mas com aquela cara de pau, deveria ser muito interessante. Cida pensou que ela sabia como domar esse tipo de homem. O arrepio voltou e ela empinou os peitos, mais provocante do que nunca.
- Combinado. Sábado então – As duas se levantaram, Lurdinha tomou um beijo estralado da amiga e saíram as duas de mãos dadas do bar, rumo ao prédio cinzento que moravam. O caixa, vendo as duas saírem rebolando tão fasceiras, não resistiu:
- Gostosas!
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
A Saga de Um Principiante - Wagner Hilário
Pessoal,
(Mais) Um grande amigo formado no tatame, Wagner é uma pessoa especial: jornalista de destaque, escritor de mão cheia (seu BLOG fala por ele) e, filho de um grande judoca, já está se destacando como uma das maiores promessas da academia onde treinamos. O texto abaixo é uma lindo presente dele, que nos relata sua estréia nos tatames competitivos. Para ler e reler!
A Saga de Um Principiante
(Parte 1)
Estava determinado, se não fosse pela qualidade atlética, venceria meus adversários pelo cheiro insuportável de Aliviador – um “genérico” do Salonpas – que eu rescendia. A mãe de uma colega de academia, que estava conosco na área de aquecimento, precisou se retirar em virtude da reação alérgica que teve ao odor do analgésico. Brincadeira à parte, era a minha primeira competição, um ano depois de ter entrado para o judô. Apesar das 27 primaveras, estava na faixa azul, terceira faixa de uma série que pode culminar na vermelha, a décima primeira, à qual acho pouco provável que um dia chegue. Para atingir tal patamar, imagino, precisaria de mais uma vida. Assim, dou-me por satisfeito se chegar à faixa preta, a nona na hierarquia e na qual há uma porção de graduações pelas quais devemos passar para alcançar a faixa “coral”, vermelha e branca, que antecede a vermelha. Essa trajetória não é fácil. A maioria passa a vida toda fazendo judô sem jamais alcançá-la, o que não é demérito, pois mais importante que ser faixa vermelha é percorrer esse caminho: o trajeto vale mais que o destino. Para quem não sabe, judô significa “caminho-suave”, do que se depreende que é uma estrada pela qual devemos percorrer com suavidade e sempre. E que paisagem nos traz esse caminho? Creio, e pelo que vejo a maioria dos judocas também crê, que nos traga o autoconhecimento, a vitória sobre si mesmo. Mas vamos à espinha dorsal deste texto: a minha primeira competição.
Lá estava eu, avariado, mas, de certa maneira, contente, porque não me faltariam desculpas para o insucesso. Porém, é óbvio, não entraria para perder. Sujeito metido besta como eu não gosta de perder nem em dois-ou-um, quanto mais numa luta em que o vitorioso é determinado na maior parte das vezes de forma inconteste e inclemente, à custa da submissão do oponente que se estatela de costas no tatame. A sensação de sofrer um ippon (golpe perfeito), imagino, é muito parecida com a de sofrer um nocaute, ao menos se considerarmos a declaração dada pelo célebre pugilista da década de 50, Floyd Patterson, ao jornalista norte-americano, Gay Talease, que a registrou em perfil intitulado “O Perdedor”. Você deve estar se perguntando: “Como é que ele compara uma coisa com outra se só tem um ano de judô e, ao menos no texto, nem da primeira competição participou ainda?” Os treinos, meu amigo... Os treinos. Neles, caiu o suficiente para lhes assegurar que sei como é... Ao ser lançado ao chão de costas, a sensação de leveza e completo descontrole sobre si mesmo lança-lhe também a uma espiral de despreocupações que dura bem menos na matéria do que no espírito. Ainda no ar, você sabe que a partir dali não há mais o que fazer, a não ser cair corretamente – o que após alguns meses de treino você começa a fazer automaticamente (às vezes pode falhar) – para depois levantar. Aliás, a primeira técnica aprendida no judô é a de queda. Não porque é a mais difícil ou a mais fácil, mas porque é a mais importante. E o difícil mesmo não é cair nem ser lançado ao tatame, mas levantar e encarar a todos com cara de derrotado. Foi isso o que disse Patterson.
– Só levanta quem sabe cair – disse-me certa vez o sensei Rioti Uchida. – E o mais importante no judô (e também na vida, por que não?) não é vencer, mas ter forças para levantar.
Contudo, não quero aqui dar conotação hollywoodiana à minha primeira competição. Patterson foi um grande pugilista: campeão Olímpico e o mais jovem campeão mundial dos pesados, com apenas 21 anos, mas ainda assim seu perfil ganhou o título de “O perdedor”. Quando fala do nocaute sofrido refere-se à luta em que tentava recuperar o título em uma revanche malsucedida contra Sonny Liston. De minha parte, o torneio em que me metia era amistoso e todos, perdedores e vencedores, levariam para casa o mesmo troféu de participação. Vencer era talvez o que menos importava para a maior parte dos envolvidos. O torneio levava ao pé da letra uma das máximas do judô, segundo a qual o vencedor não merece mais mérito nem atenção do que o derrotado. A razão desse princípio é elementar: “se não há quem perca, não há quem vença”. Mais elementar do que se poderia supor, embora soe tola aos ouvidos da maioria dos habitantes deste mundo extremamente competitivo, entre os quais me incluo.
– Quando você só pensa em derrubar sem respeitar o companheiro, as pessoas percebem, e então ninguém quer mais treinar com você. Sem ter com quem treinar, o seu judô perde qualidade, e você não vai ganhar mais de ninguém – disse-nos Uchida.
Olha, racionalmente, não faço objeção alguma a nenhuma das frases do sensei que aqui listei. Por isso, antes de iniciar os embates orei em silêncio pedindo, sobretudo, que não me contundisse, ainda mais, e que não contundisse ninguém. Não pedi mais nada a Ele, mas a mim roguei que desse um jeito de ganhar todas as lutas, mesmo estropiado. Bom, aqui vale mais uma digressão antes da “epopéia”... Tenha paciência comigo, leitor, as idéias são assim mesmo, uma chama a outra que chama outra e assim vai. Aliás, a vida é assim: um fato chama outro que chama outro e vai se embora. Esse negócio de episódio isolado é conversa para boi dormir... Além do mais, você já se dispôs a ler o texto até aqui e não vai querer perder o prato principal depois de ter comido a entrada.
(Parte 2)
O fato é que na Academia Alto da Lapa, onde treino, graças ao nosso sempai e godan (superior e faixa preta do quinto grau) Rodrigo Motta, todos somos incentivados a estabelecer, antes do início de um novo ano, pelo menos três metas para serem alcançadas ao longo dos doze meses. Como bom profissional do ramo de marketing, Motta faz questão de dizer, aderindo a mais um dos inúmeros bordões imortalizados por livros de auto-ajuda: “Quanto mais ousados forem os seus objetivos e metas, mais grandiosas serão suas conquistas”. Muito bem... Eu começara no judô no fim de setembro de 2007 e no início de novembro já conquistava a faixa cinza. Queria manter o ritmo e estabeleci como metas para 2008, em primeiro lugar, conquistar a faixa azul, depois, vencer o primeiro campeonato que disputasse e, por último, chegar à faixa amarela.
– Legal – disse-me Motta, com semblante pouco animador, depois de receber a minha lista de metas. – A faixa amarela e o primeiro campeonato são bem difíceis de conseguir, mas tudo só depende de você.
Ao pregar as metas no mural da academia, vi que Motta havia amenizado um dos meus objetivos. Em vez de conquistar o primeiro campeonato que eu disputasse, ele colocou que o meu segundo objetivo era ficar entre os três primeiros. Gostei da prudência que lhe sobrou e que me faltou. Não o agradeci, mas devia ter-lhe agradecido. A verdade é que na ocasião do campeonato já estávamos em outubro e até ali só conseguira a faixa azul. A boa notícia foi que sensei Uchida, no começo de setembro, avisou-me que eu faria o exame para a faixa amarela no fim de outubro, começo de novembro. Ou seja, àquela altura, tinha a chance de vencer a dita primeira competição e ainda conquistar a faixa amarela.
– Não acredito que o sensei tá dando essa colher de chá – brincou Motta, quando soube que eu faria o exame.
– Sinal que tô me dedicando.
– Cê falta mais do que vem. – Ele diz isso a todos, basta faltar uma única vez no mês.
O local da competição foi o Anhembi Tênis Clube, que fica na capital paulista, pertinho da Marginal do Rio Pinheiros e do Parque Villa Lobos. Antes de os adultos começarem suas lutas, as crianças disputavam as delas. Não me ative muito a nenhuma das disputas dos pequenos. Depois que tomei banho de Aliviador e vesti o quimono, só me preocupava em aquecer-me para chegar o menos dolorido possível aos embates. Na minha cabeça, tinha certeza que enfrentaria apenas atletas do meu peso, e quando comecei a pesar com o olhar meus adversários, constatei que todos eram faixas roxas, marrons ou pretas. Bom e ruim. Bom porque se eu perdesse, perderia para homens com mais de cinco anos de judô. Em suma, eu seria a zebra, não teria responsabilidade nenhuma. Ruim porque as chances de perder eram bem maiores.
Porém, algo inusitado, ao menos para mim, aconteceu. Em vez de competição eliminatória, em que perder significaria ficar de fora e ganhar seguir em frente, os adultos competiriam por equipes. Cinco equipes foram formadas e todas lutariam contra todas, em tese, e cada qual se constituiria por judocas de diversas graduações. Assim, para serem o mais justo possível, os organizadores decidiram que as chaves de disputa se constituiriam de acordo com a graduação. Exemplo: preta com preta ou marrom e assim por diante. O peso e a idade não seriam considerados, e eu acabei caindo numa chave em que quase todos os adversários eram leves (73 kg). Eu era a exceção para cima (79 kg), e um companheiro de academia, Luiz Lavos, para baixo (66 kg). Eu e ele éramos também os menos graduados: ele na cinza e eu na azul. Enfrentaríamos um faixa verde, a quarta faixa antes da preta, um laranja, a quinta, e um amarela, a sexta. Com a luta entre nós, faríamos quatro combates ao todo, embora no fim eu tenha descoberto que nem todos fizeram quatro lutas.
(Parte 3)
A minha primeira disputa foi contra um moleque alto, faixa amarela, que aparentava ter uns 16 anos. Sua envergadura, maior do que a minha, em tese lhe permitiria pegar a gola do meu quimono com mais facilidade do que um sujeito da minha altura ou menor do que eu. Por isso me concentrei em não deixá-lo chegar perto dela. Ele era destro, e tratei de dominar sua manga direita, segurando-a para que não pegasse a minha gola – regrinha elementar do judô. O segundo passo foi pegar sua gola e fazer a minha luta. Assustado, ele não parecia disposto a me atacar, o que facilitou bastante a minha estratégia. Sentindo-o acuado, parti para cima. Apenas se defendendo, ele não demorou a ser punido pelo árbitro por falta de combatividade, o que me colocou à frente no placar, com um koka, a pontuação mínima do judô. Com medo de ser punido novamente e ficar perto de uma derrota prematura – três punições significam a desclassificação da luta –, ele mudou a estratégia e se tornou mais agressivo. Assim, pude contra golpeá-lo e consegui um yuko, pontuação só superior ao koka. À frente no placar e cansado, decidi administrar a luta. Mais forte fisicamente que o garoto e ciente do desespero dele por estar perdendo, esperava-o atacar e contra golpeava sempre para não ser punido. Em determinada altura da luta, não conseguia mais dominar-lhe a manga, e ele passou a dominar a minha gola. Mas antes que ele pudesse fazer algo, o tempo de luta acabou. Venci... Uma luta dessas tem duração de três minutos e não é nada fácil ficar três minutos tentando derrubar um cara que, por sua vez, faz de tudo para não cair e de tudo para lhe derrubar.
Depois da primeira vitória, eu estava confiante para a segunda luta. Mas antes de fazê-la, teria um longo intervalo. Por serem cinco os grupos, um precisava sobrar em uma das rodadas. Na segunda rodada, foi a nossa vez. Para não esfriar, fui a um dojô (área de luta) vazio – a competição era feita num ginásio onde foram improvisados tatames que formavam umas quatro ou cinco áreas de luta – e fiquei treinando com Gilberto, uma figurinha talentosa da nossa academia de aproximadamente sete ou seis anos que venceu todas as suas lutas entre a molecada. Treinamos queda, simulamos lutas e assim eu pude me manter a todo vapor, pronto para encarar o próximo adversário. E veio logo o mais graduado da chave, um jovem faixa verde, com a minha estatura e aparentemente uns 73 kg. Não devia ter mais do que 17 anos, e me pareceu tímido ao entrar no tatame. Porém, diferentemente do faixa amarela que enfrentei na primeira luta, assim que o árbitro ordenou, (hajimê! Traduzindo: “começar!”), ele veio para cima de cara. Não sei que golpe tentou aplicar em mim, mas sei que sua perna esquerda, de apoio, ficou do jeito para eu aplicar-lhe um tani-otoshi: com a perna direita, lacei sua perna esquerda e, pesando a mão na gola também do lado esquerdo e jogando meu corpo frontalmente contra o dele, projetei-o de costas no chão.
– Ippon! Sore made (acabou)! – disse o árbitro.
Para quem ganha, é ótimo ouvir isso. Meu primeiro ippon. Estava satisfeito com meu desempenho. Havia vencido a minha primeira luta e conquistado o primeiro ippon na segunda. O certo é que, se perdesse as próximas lutas, àquela altura já não teria feito feio.
(Parte 4)
A terceira batalha não tardou a chegar. Dessa vez, meu adversário seria um velho conhecido, Luiz, contra o qual havia feito randori – simulação de luta em que o principal propósito é treinar o ataque – pouquíssimas vezes na academia. Ah, um parênteses, para os que duvidam dessa narrativa, por favor, entrem no You Tube e procurem por Luiz x Wagner. Lá, vocês verão a luta que neste parágrafo lhes narro. Mais graduado do que ele, mais pesado, mais novo, mesmo que poucos anos, e com mais tempo de judô, mesmo que um mês, a tarefa de vencê-lo pesou nas minhas costas. Estava com medo de perder. Há um velho ditado que diz: “Quem tem medo de perder, perde a vontade de ganhar”. E o primeiro golpe que entrei foi um arremedo de ouchi-gari e, hábil como é Luiz para se defender de tal técnica, o resultado só podia ser um kaeshi (contragolpe) bem dado. Por muito pouco não vi a viola em cacos ali mesmo. Caí de ombro, o que me valeu um yuko contra. Tenso, parti para cima, mas ele se defendia bem. Então, para surpreendê-lo, resolvi lançar mão de técnicas de sacrifício, golpes que quem aplica precisa se jogar de costas no chão. Primeiro, um tomoi-nague – balãozinho: pé na barriga do oponente – que me valeu um wazari, pontuação imediatamente anterior ao ippon; dois wazaris valem um ippon e a luta acaba. Passara à frente. Porém, em vez de botar o pé no freio e administrar o resultado, mantive a carga. A energia que me dominara depois de sair atrás não arrefeceu com o wazari. Então, consegui um koka por meio de um de-ashi-barai, a famosa rasteira. Quando eu pensava que a luta terminaria no tempo e não no golpe, Luiz bobeou e eu consegui pegar-lhe o quimono com a mão direita na região da nuca, o que me permitiu aplicar-lhe outra técnica de sacrifício, o sumigaeshi, uma espécie de balãozinho, só que em vez de pé na barriga, na virilha.
– Ippon! Sore made!
Estava tudo bom demais para ser verdade. Embora não disputasse uma competição individual, eu estava mais preocupado com o meu desempenho. Aliás, por equipe não íamos bem. Apesar das minhas três vitórias e das três vitórias de outro membro do nosso time – eram cinco judocas por equipe –, na somatória dos resultados, perdêramos todos os embates até aquele instante. Torcia pelos companheiros, mas me sentia intimidado em dar dicas. Afinal, eram praticamente todos sempai. Ficava mais quieto, esperando a luta seguinte.
Quando ainda recobrava o fôlego da disputa com Luiz, disseram que precisava voltar ao tatame. Agora enfrentaria o faixa laranja, que devia ter uns 40 e poucos anos. Mais alto do que eu e magro, mal segurei em seu quimono e senti como se tivesse sido tirado para dançar. Ele se movimentava bastante, mas quase não entrava golpe. Seguindo os ensinamentos do sensei Uchida, em vez de resistir-lhe aos movimentos, acompanhei-os e em dado instante se abriu para mim a perspectiva de entrar outro tani-otoshi, só que desta vez com a perna esquerda na perna direita do adversário. Foi o que fiz... Infalível, a luta acabou com mais um ippon. Missão cumprida.
(Parte 5)
O leitor deve estar pensando: “Mas que drama, até parece que ele venceu Tiago Camilo”. Já disse que não quis dar conotação hollywoodiana ao texto, mas a carga dramática que vocês encontram nele é justificável, deve-se à relevância que eu, particularmente, dava a essa conquista e, esse apreço pelo feito, impregnou de sentimentos minha narrativa. Não posso negar o orgulho que sinto por tê-lo alcançado, por isso o chamo de saga, a saga de um principiante. Se fosse faixa preta (shodan), talvez não pudesse classificá-lo assim, embora Motta sempre diga que, seja o adversário shodan ou faixa branca, seu empenho e sua concentração na luta são os mesmos. De qualquer maneira, o fato é que não me faltam exemplos de shodan cujas sagas se coadunam à graduação que amarram na cintura: sensei Uchida, campeão mundial de kata, e o próprio Motta, atual campeão brasileiro máster de judô na categoria leve. Vale dizer ainda que Motta não tem parte dos ligamentos do joelho de uma das pernas, resultado de contusão nos tatames. Na semana que antecedeu a minha participação na amistosa competição, perguntei a ele:
– Qual é a melhor estratégia para lutar contundido?
– Olha, não tem muito disso. Cê tem de entender que no judô a gente precisa aprender a conviver com a dor. Pode perguntar pro seu pai.
Meu pai foi bicampeão brasileiro de judô. Nunca tive a oportunidade de vê-lo lutar, mas sem dúvida, saber do que ele foi capaz como lutador, estimula-me a praticar e a disputar campeonatos. Não imagino chegar a dois títulos brasileiros entre os sêniores, mas me sinto com a obrigação de não fazer feio quando me propuser a lutar competitivamente. Quanto à resposta de Motta, acho que quis dizer: lute sempre, apesar das dores. Mais uma lição que podemos extrapolar dos tatames para a vida. Afinal, quantas não são as dores, físicas e espirituais, com quais as devemos conviver dia a dia, sem jamais interromper nossos passos.
Agora que retomo a questão da contusão – com o quê comecei este texto – devo explicar que ela não era fruto da minha imaginação. Duas semanas antes da modesta epopéia que aqui lhes narrei, durante um randori, ao tentar aplicar um ippon-seonague de esquerda, golpe em que carregamos o adversário nas costas, calculei mal o movimento, entrei longe e permiti a defesa. Inexperiente, fiz tudo isso com vigor demasiado, e quando o oponente travou o giro do meu quadril com a mão, não tive tempo de conter o tronco. Ouvi um estalo doloroso no músculo dorsal, seguramente uma contratura. Você deve se perguntar: “Se a contusão era verdadeira, onde ela foi parar durante a competição?”. Não sei, só sei que assim que a competição acabou ela voltou... E durou mais um mês, cada vez menos aguda. Nesse ínterim, convivendo com a dor, que, verdade seja dita, àquela altura já não era nada demais, fiz meu exame de faixa e conquistei a faixa amarela.
Aí, leitor, você, irritado, vira e diz: “Poxa! Você escreveu tudo isso para ufanar-se das próprias conquistas. E a história do Floyd Patterson? E o lance de que perder e se reerguer é mais glorioso do que vencer? Você não perdeu nada”. Verdade. Este texto talvez ficasse melhor se eu perdesse e contasse o que senti diante da derrota. Aliás, fica aqui meu compromisso de narrar-lhes uma jornada malsucedida também. E fique sabendo que elas não faltarão... O fato é que sou realmente apenas um principiante, pois para ser um campeão de verdade, terei de vivenciar muitas derrotas. Como costuma dizer o sensei: “A gente aprende enquanto está caindo. Quando para de cair, para de aprender. Aí, temos de buscar um lugar onde nos derrubem para continuarmos a aprender”. E por um acaso existe vitória maior do que aprender?
(Mais) Um grande amigo formado no tatame, Wagner é uma pessoa especial: jornalista de destaque, escritor de mão cheia (seu BLOG fala por ele) e, filho de um grande judoca, já está se destacando como uma das maiores promessas da academia onde treinamos. O texto abaixo é uma lindo presente dele, que nos relata sua estréia nos tatames competitivos. Para ler e reler!
A Saga de Um Principiante
(Parte 1)
Estava determinado, se não fosse pela qualidade atlética, venceria meus adversários pelo cheiro insuportável de Aliviador – um “genérico” do Salonpas – que eu rescendia. A mãe de uma colega de academia, que estava conosco na área de aquecimento, precisou se retirar em virtude da reação alérgica que teve ao odor do analgésico. Brincadeira à parte, era a minha primeira competição, um ano depois de ter entrado para o judô. Apesar das 27 primaveras, estava na faixa azul, terceira faixa de uma série que pode culminar na vermelha, a décima primeira, à qual acho pouco provável que um dia chegue. Para atingir tal patamar, imagino, precisaria de mais uma vida. Assim, dou-me por satisfeito se chegar à faixa preta, a nona na hierarquia e na qual há uma porção de graduações pelas quais devemos passar para alcançar a faixa “coral”, vermelha e branca, que antecede a vermelha. Essa trajetória não é fácil. A maioria passa a vida toda fazendo judô sem jamais alcançá-la, o que não é demérito, pois mais importante que ser faixa vermelha é percorrer esse caminho: o trajeto vale mais que o destino. Para quem não sabe, judô significa “caminho-suave”, do que se depreende que é uma estrada pela qual devemos percorrer com suavidade e sempre. E que paisagem nos traz esse caminho? Creio, e pelo que vejo a maioria dos judocas também crê, que nos traga o autoconhecimento, a vitória sobre si mesmo. Mas vamos à espinha dorsal deste texto: a minha primeira competição.
Lá estava eu, avariado, mas, de certa maneira, contente, porque não me faltariam desculpas para o insucesso. Porém, é óbvio, não entraria para perder. Sujeito metido besta como eu não gosta de perder nem em dois-ou-um, quanto mais numa luta em que o vitorioso é determinado na maior parte das vezes de forma inconteste e inclemente, à custa da submissão do oponente que se estatela de costas no tatame. A sensação de sofrer um ippon (golpe perfeito), imagino, é muito parecida com a de sofrer um nocaute, ao menos se considerarmos a declaração dada pelo célebre pugilista da década de 50, Floyd Patterson, ao jornalista norte-americano, Gay Talease, que a registrou em perfil intitulado “O Perdedor”. Você deve estar se perguntando: “Como é que ele compara uma coisa com outra se só tem um ano de judô e, ao menos no texto, nem da primeira competição participou ainda?” Os treinos, meu amigo... Os treinos. Neles, caiu o suficiente para lhes assegurar que sei como é... Ao ser lançado ao chão de costas, a sensação de leveza e completo descontrole sobre si mesmo lança-lhe também a uma espiral de despreocupações que dura bem menos na matéria do que no espírito. Ainda no ar, você sabe que a partir dali não há mais o que fazer, a não ser cair corretamente – o que após alguns meses de treino você começa a fazer automaticamente (às vezes pode falhar) – para depois levantar. Aliás, a primeira técnica aprendida no judô é a de queda. Não porque é a mais difícil ou a mais fácil, mas porque é a mais importante. E o difícil mesmo não é cair nem ser lançado ao tatame, mas levantar e encarar a todos com cara de derrotado. Foi isso o que disse Patterson.
– Só levanta quem sabe cair – disse-me certa vez o sensei Rioti Uchida. – E o mais importante no judô (e também na vida, por que não?) não é vencer, mas ter forças para levantar.
Contudo, não quero aqui dar conotação hollywoodiana à minha primeira competição. Patterson foi um grande pugilista: campeão Olímpico e o mais jovem campeão mundial dos pesados, com apenas 21 anos, mas ainda assim seu perfil ganhou o título de “O perdedor”. Quando fala do nocaute sofrido refere-se à luta em que tentava recuperar o título em uma revanche malsucedida contra Sonny Liston. De minha parte, o torneio em que me metia era amistoso e todos, perdedores e vencedores, levariam para casa o mesmo troféu de participação. Vencer era talvez o que menos importava para a maior parte dos envolvidos. O torneio levava ao pé da letra uma das máximas do judô, segundo a qual o vencedor não merece mais mérito nem atenção do que o derrotado. A razão desse princípio é elementar: “se não há quem perca, não há quem vença”. Mais elementar do que se poderia supor, embora soe tola aos ouvidos da maioria dos habitantes deste mundo extremamente competitivo, entre os quais me incluo.
– Quando você só pensa em derrubar sem respeitar o companheiro, as pessoas percebem, e então ninguém quer mais treinar com você. Sem ter com quem treinar, o seu judô perde qualidade, e você não vai ganhar mais de ninguém – disse-nos Uchida.
Olha, racionalmente, não faço objeção alguma a nenhuma das frases do sensei que aqui listei. Por isso, antes de iniciar os embates orei em silêncio pedindo, sobretudo, que não me contundisse, ainda mais, e que não contundisse ninguém. Não pedi mais nada a Ele, mas a mim roguei que desse um jeito de ganhar todas as lutas, mesmo estropiado. Bom, aqui vale mais uma digressão antes da “epopéia”... Tenha paciência comigo, leitor, as idéias são assim mesmo, uma chama a outra que chama outra e assim vai. Aliás, a vida é assim: um fato chama outro que chama outro e vai se embora. Esse negócio de episódio isolado é conversa para boi dormir... Além do mais, você já se dispôs a ler o texto até aqui e não vai querer perder o prato principal depois de ter comido a entrada.
(Parte 2)
O fato é que na Academia Alto da Lapa, onde treino, graças ao nosso sempai e godan (superior e faixa preta do quinto grau) Rodrigo Motta, todos somos incentivados a estabelecer, antes do início de um novo ano, pelo menos três metas para serem alcançadas ao longo dos doze meses. Como bom profissional do ramo de marketing, Motta faz questão de dizer, aderindo a mais um dos inúmeros bordões imortalizados por livros de auto-ajuda: “Quanto mais ousados forem os seus objetivos e metas, mais grandiosas serão suas conquistas”. Muito bem... Eu começara no judô no fim de setembro de 2007 e no início de novembro já conquistava a faixa cinza. Queria manter o ritmo e estabeleci como metas para 2008, em primeiro lugar, conquistar a faixa azul, depois, vencer o primeiro campeonato que disputasse e, por último, chegar à faixa amarela.
– Legal – disse-me Motta, com semblante pouco animador, depois de receber a minha lista de metas. – A faixa amarela e o primeiro campeonato são bem difíceis de conseguir, mas tudo só depende de você.
Ao pregar as metas no mural da academia, vi que Motta havia amenizado um dos meus objetivos. Em vez de conquistar o primeiro campeonato que eu disputasse, ele colocou que o meu segundo objetivo era ficar entre os três primeiros. Gostei da prudência que lhe sobrou e que me faltou. Não o agradeci, mas devia ter-lhe agradecido. A verdade é que na ocasião do campeonato já estávamos em outubro e até ali só conseguira a faixa azul. A boa notícia foi que sensei Uchida, no começo de setembro, avisou-me que eu faria o exame para a faixa amarela no fim de outubro, começo de novembro. Ou seja, àquela altura, tinha a chance de vencer a dita primeira competição e ainda conquistar a faixa amarela.
– Não acredito que o sensei tá dando essa colher de chá – brincou Motta, quando soube que eu faria o exame.
– Sinal que tô me dedicando.
– Cê falta mais do que vem. – Ele diz isso a todos, basta faltar uma única vez no mês.
O local da competição foi o Anhembi Tênis Clube, que fica na capital paulista, pertinho da Marginal do Rio Pinheiros e do Parque Villa Lobos. Antes de os adultos começarem suas lutas, as crianças disputavam as delas. Não me ative muito a nenhuma das disputas dos pequenos. Depois que tomei banho de Aliviador e vesti o quimono, só me preocupava em aquecer-me para chegar o menos dolorido possível aos embates. Na minha cabeça, tinha certeza que enfrentaria apenas atletas do meu peso, e quando comecei a pesar com o olhar meus adversários, constatei que todos eram faixas roxas, marrons ou pretas. Bom e ruim. Bom porque se eu perdesse, perderia para homens com mais de cinco anos de judô. Em suma, eu seria a zebra, não teria responsabilidade nenhuma. Ruim porque as chances de perder eram bem maiores.
Porém, algo inusitado, ao menos para mim, aconteceu. Em vez de competição eliminatória, em que perder significaria ficar de fora e ganhar seguir em frente, os adultos competiriam por equipes. Cinco equipes foram formadas e todas lutariam contra todas, em tese, e cada qual se constituiria por judocas de diversas graduações. Assim, para serem o mais justo possível, os organizadores decidiram que as chaves de disputa se constituiriam de acordo com a graduação. Exemplo: preta com preta ou marrom e assim por diante. O peso e a idade não seriam considerados, e eu acabei caindo numa chave em que quase todos os adversários eram leves (73 kg). Eu era a exceção para cima (79 kg), e um companheiro de academia, Luiz Lavos, para baixo (66 kg). Eu e ele éramos também os menos graduados: ele na cinza e eu na azul. Enfrentaríamos um faixa verde, a quarta faixa antes da preta, um laranja, a quinta, e um amarela, a sexta. Com a luta entre nós, faríamos quatro combates ao todo, embora no fim eu tenha descoberto que nem todos fizeram quatro lutas.
(Parte 3)
A minha primeira disputa foi contra um moleque alto, faixa amarela, que aparentava ter uns 16 anos. Sua envergadura, maior do que a minha, em tese lhe permitiria pegar a gola do meu quimono com mais facilidade do que um sujeito da minha altura ou menor do que eu. Por isso me concentrei em não deixá-lo chegar perto dela. Ele era destro, e tratei de dominar sua manga direita, segurando-a para que não pegasse a minha gola – regrinha elementar do judô. O segundo passo foi pegar sua gola e fazer a minha luta. Assustado, ele não parecia disposto a me atacar, o que facilitou bastante a minha estratégia. Sentindo-o acuado, parti para cima. Apenas se defendendo, ele não demorou a ser punido pelo árbitro por falta de combatividade, o que me colocou à frente no placar, com um koka, a pontuação mínima do judô. Com medo de ser punido novamente e ficar perto de uma derrota prematura – três punições significam a desclassificação da luta –, ele mudou a estratégia e se tornou mais agressivo. Assim, pude contra golpeá-lo e consegui um yuko, pontuação só superior ao koka. À frente no placar e cansado, decidi administrar a luta. Mais forte fisicamente que o garoto e ciente do desespero dele por estar perdendo, esperava-o atacar e contra golpeava sempre para não ser punido. Em determinada altura da luta, não conseguia mais dominar-lhe a manga, e ele passou a dominar a minha gola. Mas antes que ele pudesse fazer algo, o tempo de luta acabou. Venci... Uma luta dessas tem duração de três minutos e não é nada fácil ficar três minutos tentando derrubar um cara que, por sua vez, faz de tudo para não cair e de tudo para lhe derrubar.
Depois da primeira vitória, eu estava confiante para a segunda luta. Mas antes de fazê-la, teria um longo intervalo. Por serem cinco os grupos, um precisava sobrar em uma das rodadas. Na segunda rodada, foi a nossa vez. Para não esfriar, fui a um dojô (área de luta) vazio – a competição era feita num ginásio onde foram improvisados tatames que formavam umas quatro ou cinco áreas de luta – e fiquei treinando com Gilberto, uma figurinha talentosa da nossa academia de aproximadamente sete ou seis anos que venceu todas as suas lutas entre a molecada. Treinamos queda, simulamos lutas e assim eu pude me manter a todo vapor, pronto para encarar o próximo adversário. E veio logo o mais graduado da chave, um jovem faixa verde, com a minha estatura e aparentemente uns 73 kg. Não devia ter mais do que 17 anos, e me pareceu tímido ao entrar no tatame. Porém, diferentemente do faixa amarela que enfrentei na primeira luta, assim que o árbitro ordenou, (hajimê! Traduzindo: “começar!”), ele veio para cima de cara. Não sei que golpe tentou aplicar em mim, mas sei que sua perna esquerda, de apoio, ficou do jeito para eu aplicar-lhe um tani-otoshi: com a perna direita, lacei sua perna esquerda e, pesando a mão na gola também do lado esquerdo e jogando meu corpo frontalmente contra o dele, projetei-o de costas no chão.
– Ippon! Sore made (acabou)! – disse o árbitro.
Para quem ganha, é ótimo ouvir isso. Meu primeiro ippon. Estava satisfeito com meu desempenho. Havia vencido a minha primeira luta e conquistado o primeiro ippon na segunda. O certo é que, se perdesse as próximas lutas, àquela altura já não teria feito feio.
(Parte 4)
A terceira batalha não tardou a chegar. Dessa vez, meu adversário seria um velho conhecido, Luiz, contra o qual havia feito randori – simulação de luta em que o principal propósito é treinar o ataque – pouquíssimas vezes na academia. Ah, um parênteses, para os que duvidam dessa narrativa, por favor, entrem no You Tube e procurem por Luiz x Wagner. Lá, vocês verão a luta que neste parágrafo lhes narro. Mais graduado do que ele, mais pesado, mais novo, mesmo que poucos anos, e com mais tempo de judô, mesmo que um mês, a tarefa de vencê-lo pesou nas minhas costas. Estava com medo de perder. Há um velho ditado que diz: “Quem tem medo de perder, perde a vontade de ganhar”. E o primeiro golpe que entrei foi um arremedo de ouchi-gari e, hábil como é Luiz para se defender de tal técnica, o resultado só podia ser um kaeshi (contragolpe) bem dado. Por muito pouco não vi a viola em cacos ali mesmo. Caí de ombro, o que me valeu um yuko contra. Tenso, parti para cima, mas ele se defendia bem. Então, para surpreendê-lo, resolvi lançar mão de técnicas de sacrifício, golpes que quem aplica precisa se jogar de costas no chão. Primeiro, um tomoi-nague – balãozinho: pé na barriga do oponente – que me valeu um wazari, pontuação imediatamente anterior ao ippon; dois wazaris valem um ippon e a luta acaba. Passara à frente. Porém, em vez de botar o pé no freio e administrar o resultado, mantive a carga. A energia que me dominara depois de sair atrás não arrefeceu com o wazari. Então, consegui um koka por meio de um de-ashi-barai, a famosa rasteira. Quando eu pensava que a luta terminaria no tempo e não no golpe, Luiz bobeou e eu consegui pegar-lhe o quimono com a mão direita na região da nuca, o que me permitiu aplicar-lhe outra técnica de sacrifício, o sumigaeshi, uma espécie de balãozinho, só que em vez de pé na barriga, na virilha.
– Ippon! Sore made!
Estava tudo bom demais para ser verdade. Embora não disputasse uma competição individual, eu estava mais preocupado com o meu desempenho. Aliás, por equipe não íamos bem. Apesar das minhas três vitórias e das três vitórias de outro membro do nosso time – eram cinco judocas por equipe –, na somatória dos resultados, perdêramos todos os embates até aquele instante. Torcia pelos companheiros, mas me sentia intimidado em dar dicas. Afinal, eram praticamente todos sempai. Ficava mais quieto, esperando a luta seguinte.
Quando ainda recobrava o fôlego da disputa com Luiz, disseram que precisava voltar ao tatame. Agora enfrentaria o faixa laranja, que devia ter uns 40 e poucos anos. Mais alto do que eu e magro, mal segurei em seu quimono e senti como se tivesse sido tirado para dançar. Ele se movimentava bastante, mas quase não entrava golpe. Seguindo os ensinamentos do sensei Uchida, em vez de resistir-lhe aos movimentos, acompanhei-os e em dado instante se abriu para mim a perspectiva de entrar outro tani-otoshi, só que desta vez com a perna esquerda na perna direita do adversário. Foi o que fiz... Infalível, a luta acabou com mais um ippon. Missão cumprida.
(Parte 5)
O leitor deve estar pensando: “Mas que drama, até parece que ele venceu Tiago Camilo”. Já disse que não quis dar conotação hollywoodiana ao texto, mas a carga dramática que vocês encontram nele é justificável, deve-se à relevância que eu, particularmente, dava a essa conquista e, esse apreço pelo feito, impregnou de sentimentos minha narrativa. Não posso negar o orgulho que sinto por tê-lo alcançado, por isso o chamo de saga, a saga de um principiante. Se fosse faixa preta (shodan), talvez não pudesse classificá-lo assim, embora Motta sempre diga que, seja o adversário shodan ou faixa branca, seu empenho e sua concentração na luta são os mesmos. De qualquer maneira, o fato é que não me faltam exemplos de shodan cujas sagas se coadunam à graduação que amarram na cintura: sensei Uchida, campeão mundial de kata, e o próprio Motta, atual campeão brasileiro máster de judô na categoria leve. Vale dizer ainda que Motta não tem parte dos ligamentos do joelho de uma das pernas, resultado de contusão nos tatames. Na semana que antecedeu a minha participação na amistosa competição, perguntei a ele:
– Qual é a melhor estratégia para lutar contundido?
– Olha, não tem muito disso. Cê tem de entender que no judô a gente precisa aprender a conviver com a dor. Pode perguntar pro seu pai.
Meu pai foi bicampeão brasileiro de judô. Nunca tive a oportunidade de vê-lo lutar, mas sem dúvida, saber do que ele foi capaz como lutador, estimula-me a praticar e a disputar campeonatos. Não imagino chegar a dois títulos brasileiros entre os sêniores, mas me sinto com a obrigação de não fazer feio quando me propuser a lutar competitivamente. Quanto à resposta de Motta, acho que quis dizer: lute sempre, apesar das dores. Mais uma lição que podemos extrapolar dos tatames para a vida. Afinal, quantas não são as dores, físicas e espirituais, com quais as devemos conviver dia a dia, sem jamais interromper nossos passos.
Agora que retomo a questão da contusão – com o quê comecei este texto – devo explicar que ela não era fruto da minha imaginação. Duas semanas antes da modesta epopéia que aqui lhes narrei, durante um randori, ao tentar aplicar um ippon-seonague de esquerda, golpe em que carregamos o adversário nas costas, calculei mal o movimento, entrei longe e permiti a defesa. Inexperiente, fiz tudo isso com vigor demasiado, e quando o oponente travou o giro do meu quadril com a mão, não tive tempo de conter o tronco. Ouvi um estalo doloroso no músculo dorsal, seguramente uma contratura. Você deve se perguntar: “Se a contusão era verdadeira, onde ela foi parar durante a competição?”. Não sei, só sei que assim que a competição acabou ela voltou... E durou mais um mês, cada vez menos aguda. Nesse ínterim, convivendo com a dor, que, verdade seja dita, àquela altura já não era nada demais, fiz meu exame de faixa e conquistei a faixa amarela.
Aí, leitor, você, irritado, vira e diz: “Poxa! Você escreveu tudo isso para ufanar-se das próprias conquistas. E a história do Floyd Patterson? E o lance de que perder e se reerguer é mais glorioso do que vencer? Você não perdeu nada”. Verdade. Este texto talvez ficasse melhor se eu perdesse e contasse o que senti diante da derrota. Aliás, fica aqui meu compromisso de narrar-lhes uma jornada malsucedida também. E fique sabendo que elas não faltarão... O fato é que sou realmente apenas um principiante, pois para ser um campeão de verdade, terei de vivenciar muitas derrotas. Como costuma dizer o sensei: “A gente aprende enquanto está caindo. Quando para de cair, para de aprender. Aí, temos de buscar um lugar onde nos derrubem para continuarmos a aprender”. E por um acaso existe vitória maior do que aprender?
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