Penúltima crônica de um judoca determinado, onde meu amigo Emir Nunes Moreira nos conta as peripécias do seu filho e grande judoca Luis Henrique no judô no Rio Grande, no Brasil e no Mundo. Uma delícia de ler!
O ano de 1980 oferecia a oportunidade para o Luís Henrique conquistar o octacampeonato estadual gaúcho na categoria juvenil-mirim, 13 e 14 anos, já portando a faixa marrom.
A esta altura do campeonato, com o nome feito no estado, à custa de muitos e memoráveis ippons, era enorme a quantidade de adversários almejando batê-lo, acabar mesmo com tão longevo “reinado”.
No Stylo Judô Clube de Porto Alegre havia um menino de 14 anos, o Eros Alex Ribeiro, que foi o escolhido para a façanha, a ser desenvolvida através de meios altamente estratégicos e baseada em um trabalho de aproximadamente dois meses.
O profissional indicado para conduzir o Eros à vitória sobre o Luís Henrique foi o renomado professor de Judô e Educação Física Fernando Lemos. E, verdade seja dita, ele procurou-nos antes e contou do seu objetivo, a ser feito em moldes científicos, aliando intensa preparação física, técnica e emocional.
Para tanto, e com a anuência dos seus pais, o professor Fernando praticamente levou o Eros para morar consigo por cerca de dois meses antes do campeonato estadual daquele ano. O professor Fernando Lemos, a par do seu notável conhecimento e das inegáveis qualidades do seu judoca, tratou de filmar as lutas do Luís Henrique para estudar todos os seus movimentos, além de muito treino físico e técnico e incontáveis horas de motivação, para facilitar a vida do Eros e, em consequência, até, evitar o octacampeonato estadual consecutivo do Luís Henrique.
Por ser uma pessoa transparente, o professor Fernando fez toda a preparação do Eros às claras, nada tinha contra o Luís Henrique, apenas entendia que poderia vencê-lo com um atleta escolhido a dedo.
E, no dia 30 de agosto de 1980, no DED, com uma só área funcionando, houve a final tão esperada, sob a mediação do prof. Luiz Scandiel, sempre ele, novamente indicado por puro acaso.
O Eros, super motivado, partiu com tudo, tomando todas as iniciativas, o que levou o prof. Scandiel a punir o Luís Henrique, dando ao Eros uma pequena vantagem no placar. Incontinenti, e não obstante os desesperados gritos do prof. Fernando Lemos para refrear o seu entusiasmo, o Eros literalmente correu para cima do Luís Henrique e levou um ippon perfeito, morote seoi nague, claro!
O Eros, bom menino, jamais logrou uma vitória sobre o Luís Henrique.
quinta-feira, 9 de junho de 2011
segunda-feira, 30 de maio de 2011
Crônica de um judoca determinado - 6 - Os intercâmbios e a opinião do Português
A par dos intercâmbios com outros centros de prática do Judô, iniciados no Gondoleiros e consolidados na Sogipa, com torneios contra o Blumenau (SC), o Pinheiros (SP) e a Gama Filho (RJ), esta com ida e volta, sempre considerei a necessidade do atleta visitar academias locais, mediante convite, até para quebrar a monotonia dos treinos no mesmo lugar e com os colegas de sempre.
Assim pensando, diversas vezes visitamos academias coirmãs, quase sempre lá encontrando combates acirrados, pois ninguém queria cair para o visitante, até porque o morote do Luís Henrique continuava fazendo estragos.
Dos tantos locais visitados em Porto Alegre e arredores, destaco a visita a uma academia do prof. Fernando Lemos, fã confesso do Luís Henrique, localizada no salão de uma igreja no Menino Deus, cujos atletas passavam muito tempo cobrando promoções e pouco treinando, para irritação do sensei.
Na hora aprazada lá estávamos, constatando que o Luís Henrique esquecera em casa a sua faixa verde (aos 10 anos), motivo para o Fernando Lemos emprestar-lhe uma branca e, no decorrer dos randoris, com todos que enfrentaram o Luís Henrique caindo várias vezes por ippon, ensejando ao prof. Fernando a chance de dar uma lição aos seus afoitos pupilos. Registre-se que os atletas locais queriam pegar o pequeno judoca visitante “faixa branca”, sendo formada, inclusive, uma concorrida fila para isso...
Com o entusiasmo de um orgulhoso pai de três varões bons de Judô, sempre procurei registrar a evolução e a carreira dos filhos, tudo plasmado em vários álbuns, centenas de slides e fotos e, nos últimos anos, algumas dezenas de filmes super 8.
No período das “filmagens”, quando adquiri uma câmera com sistema de aproximação e uma iluminação a halogênio, coisa chique e moderna para a época, restaram dois episódios até hilários, ambos partidos do Grêmio de Porto Alegre. O primeiro, quando convenceram os dirigentes da federação de que a lâmpada que eu usava, por ser de luz branca e muito forte, “cegava” os adversários do Luís Henrique, como se o Judô fosse estático, com a consequente proibição de filmarmos com luz...
O segundo, ao visitarmos um restaurante perto do Estádio Olímpico do Grêmio, que, para nossa surpresa, constatamos pertencer ao Português, pai do Branco, um atleta sem expressão do Grêmio. O obtuso Português aproveitou para reclamar, ao vivo, que o seu filho sempre perdeu para o Luís Henrique por causa da minha maldita luz...
Assim pensando, diversas vezes visitamos academias coirmãs, quase sempre lá encontrando combates acirrados, pois ninguém queria cair para o visitante, até porque o morote do Luís Henrique continuava fazendo estragos.
Dos tantos locais visitados em Porto Alegre e arredores, destaco a visita a uma academia do prof. Fernando Lemos, fã confesso do Luís Henrique, localizada no salão de uma igreja no Menino Deus, cujos atletas passavam muito tempo cobrando promoções e pouco treinando, para irritação do sensei.
Na hora aprazada lá estávamos, constatando que o Luís Henrique esquecera em casa a sua faixa verde (aos 10 anos), motivo para o Fernando Lemos emprestar-lhe uma branca e, no decorrer dos randoris, com todos que enfrentaram o Luís Henrique caindo várias vezes por ippon, ensejando ao prof. Fernando a chance de dar uma lição aos seus afoitos pupilos. Registre-se que os atletas locais queriam pegar o pequeno judoca visitante “faixa branca”, sendo formada, inclusive, uma concorrida fila para isso...
Com o entusiasmo de um orgulhoso pai de três varões bons de Judô, sempre procurei registrar a evolução e a carreira dos filhos, tudo plasmado em vários álbuns, centenas de slides e fotos e, nos últimos anos, algumas dezenas de filmes super 8.
No período das “filmagens”, quando adquiri uma câmera com sistema de aproximação e uma iluminação a halogênio, coisa chique e moderna para a época, restaram dois episódios até hilários, ambos partidos do Grêmio de Porto Alegre. O primeiro, quando convenceram os dirigentes da federação de que a lâmpada que eu usava, por ser de luz branca e muito forte, “cegava” os adversários do Luís Henrique, como se o Judô fosse estático, com a consequente proibição de filmarmos com luz...
O segundo, ao visitarmos um restaurante perto do Estádio Olímpico do Grêmio, que, para nossa surpresa, constatamos pertencer ao Português, pai do Branco, um atleta sem expressão do Grêmio. O obtuso Português aproveitou para reclamar, ao vivo, que o seu filho sempre perdeu para o Luís Henrique por causa da minha maldita luz...
sexta-feira, 27 de maio de 2011
Dica de Leitura 127 - A Raínha dos Caraíbas
Bom, esperei décadas para reler "Corsário Negro" e a Iluminuras emenda e publica a coleção toda...nessa continuação o Corsário, atormentado pelos irmãos não-vingados e pelo amor perdido da filha de Wan Guld, vai no México finalmente encontrar seu maior inimigo. E só um vai sobreviver dessa vez...mesma linha do primeiro da série, mas vale para quem gostou dos personagens...agora já vou começar o terceiro, "Iolanda, a filha do Corsário Negro". Essas séries são fogo...da época em que os livros eram publicados em folhetins.
Dica de Leitura 126 - O Corsário Negro
Esperei 25 anos para reler esse livro...em nova edição da Iluminuras, Emílio Salgari, soberbo escritor de aventuras que no século XX iniciou e motivou gerações a explorarem (e algumas vezes conquistarem) o mundo, nos apresenta ao Corsário Negro. Para vingar os 3 irmãos, mortos pelo Duque Wan Guld, o nobre se transforma no terrível corsário...e enfrenta seu inimigo nas colônias espanholas do Caribe. Só que além de todos os perigos da selva e do exército espanhol, entre o Corsário e Wan Guld se colocará uma barreira prá lá de difícil: a filha do Duque por quem o vingador se apaixona...quem não leu tem que ler, quem já leu, relembrar é viver.
Dica de Leitura 125 - Império
Nesse livro, o historiador Niall Ferguson nos apresenta qual a (gigantesca) contribuição dos britânicos para a construção do mundo moderno. Com um pouco de pirata, um pouco de comerciante, um pouco de conquistador, um pouco de missionário,...os britânicos nos últimos 400 anos foram provavelmente o povo que mais contribuiu para o mundo ser como é hoje (basta ver importância da língua inglesa, a força da ex-colônia e sucessor EUA e quem segurou o ímpeto de Hitler na II Guerra). Com um julgamento razoalvemente isento, o autor nos apresenta como isso aconteceu. Ótima leitura.
Dica de Leitura 124 - Elogio da Mentira
Patricia Melo escreveu ótimos livros policiais, como Inferno, O Matador...ela é da escola do Rubem Fonseca, texto seco, rápido, com anti-heróis simpáticos (boa, mas não tão boa quanto o RF). Esse livro é mais um policial dessa escola, onde um escritor pulp se apaixona por uma esposa de um milionário, assassina compulsiva e criadora de cobras, focada na herança e no seguro...e entre mil e uma peripécias, assassinatos, etc nosso herói o escritor vai às vezes ajudando, às vezes se opondo, sobrevivendo as armadilhas da bruxa má.
Para ler na ponte aérea (é curtinho)...
Para ler na ponte aérea (é curtinho)...
Crônicas de um judoca determinado - 5 - Dois adversários, duas histórias diferentes
Nessa quinta crônica de um judoca determinado, Emir Vilalba conta a importância dos adversários para a formação do grande judoca que foi seu filho, Luis Henrique. E como escolhas diferentes podem levar pessoas ao céu ou ao inferno...Demais!
O valoroso atleta Antônio Goulart, o Tuti, de Santa Maria, marcou época no judô gaúcho pela valentia, garra, técnica e uma imensa determinação em vencer o Luís Henrique.
Encontravam-se, no mínimo, duas vezes por ano, no Campeonato Estadual Estudantil e no Campeonato Estadual do Rio Grande do Sul, e o Tuti, a par de uma admiração muito grande pelo seu adversário, nutria o desejo de vencê-lo um dia no tatame, o que jamais ocorreu.
Era um menino extremamente educado e simpático e sempre nos procurava antes das competições para saber se estava na mesma chave do Luís Henrique, tendo ambos protagonizado lutas memoráveis: o Tuti enfrentava o Luís Henrique com a gana de vencer, ia para cima mesmo, mas quase sempre acabava vencido por ippon.
Hoje o Tuti é .médico em Santa Maria, sua cidade natal.
Já o Cesar Schneider, o Toquinho, adversário em muitas disputas, logrou uma vitória na bandeira em 13 de maio de 1978 no Campeonato Metropolitano, categoria infanto-juvenil pluma (11 e 12 anos).
O Cesar Schneider, atleta do Grêmio de Porto Alegre, era muito ágil e voluntarioso, e o seu clube em peso comemorou muito essa única vitória sobre o Luís Henrique, com destaque para o pai do Carlos Heitor, cujo nome não lembro: aquele senhor, de porte e barriga avantajados, após proclamada a vitória do Toquinho, saiu a correr pelas dependências do DED – Departamento Estadual de Desportes aos gritos de “Acabou o reinado, acabou o reinado!..”
Anos depois, com o Luís Henrique atleta do Grêmio e convivendo com aquelas mesmas pessoas, tive ímpetos de cobrar daquele senhor a sua ridícula correria pelo DED, mas me contive, até porque, fazendo menção a um reinado que acabara, plasmou o reconhecimento de que havia, sim, um rei, o rei-menino dos tatames, que com a sua técnica e determinação reescreveu a História do Judô no Rio Grande do Sul.
Quanto ao Cesar Schneider, o Toquinho, que mais tarde, fazendo das drogas a sua companhia constante, morreu de overdose antes dos vinte anos de idade, coitado.
Duas histórias dos tatames e dois destinos muito diferentes.
O valoroso atleta Antônio Goulart, o Tuti, de Santa Maria, marcou época no judô gaúcho pela valentia, garra, técnica e uma imensa determinação em vencer o Luís Henrique.
Encontravam-se, no mínimo, duas vezes por ano, no Campeonato Estadual Estudantil e no Campeonato Estadual do Rio Grande do Sul, e o Tuti, a par de uma admiração muito grande pelo seu adversário, nutria o desejo de vencê-lo um dia no tatame, o que jamais ocorreu.
Era um menino extremamente educado e simpático e sempre nos procurava antes das competições para saber se estava na mesma chave do Luís Henrique, tendo ambos protagonizado lutas memoráveis: o Tuti enfrentava o Luís Henrique com a gana de vencer, ia para cima mesmo, mas quase sempre acabava vencido por ippon.
Hoje o Tuti é .médico em Santa Maria, sua cidade natal.
Já o Cesar Schneider, o Toquinho, adversário em muitas disputas, logrou uma vitória na bandeira em 13 de maio de 1978 no Campeonato Metropolitano, categoria infanto-juvenil pluma (11 e 12 anos).
O Cesar Schneider, atleta do Grêmio de Porto Alegre, era muito ágil e voluntarioso, e o seu clube em peso comemorou muito essa única vitória sobre o Luís Henrique, com destaque para o pai do Carlos Heitor, cujo nome não lembro: aquele senhor, de porte e barriga avantajados, após proclamada a vitória do Toquinho, saiu a correr pelas dependências do DED – Departamento Estadual de Desportes aos gritos de “Acabou o reinado, acabou o reinado!..”
Anos depois, com o Luís Henrique atleta do Grêmio e convivendo com aquelas mesmas pessoas, tive ímpetos de cobrar daquele senhor a sua ridícula correria pelo DED, mas me contive, até porque, fazendo menção a um reinado que acabara, plasmou o reconhecimento de que havia, sim, um rei, o rei-menino dos tatames, que com a sua técnica e determinação reescreveu a História do Judô no Rio Grande do Sul.
Quanto ao Cesar Schneider, o Toquinho, que mais tarde, fazendo das drogas a sua companhia constante, morreu de overdose antes dos vinte anos de idade, coitado.
Duas histórias dos tatames e dois destinos muito diferentes.
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